Por Greice Moreti, cofundadora do RONRON Cat Café

A criação do SinPatinhas, sistema lançado pelo governo federal para registrar cães e gatos e reunir informações sobre seus responsáveis, coloca o país diante de uma mudança importante na forma de tratar os animais de companhia. Identificação, vacinação, castração e transferência de responsabilidade passam a fazer parte de uma mesma base de informações. Mas nenhum cadastro resolve sozinho o problema que antecede a permanência de um animal em uma família: a qualidade da escolha que levou à adoção. No caso dos gatos, ainda é comum que essa decisão seja guiada pela aparência, pela idade ou por uma imagem pré-concebida do animal. É preciso inverter essa lógica. Antes de perguntar qual gato combina com aquilo que imaginamos, deveríamos descobrir com qual gato conseguimos construir uma relação.

O tamanho da população felina brasileira torna essa discussão menos trivial do que parece. Dados da Abempet apresentados ao Ministério da Agricultura e Pecuária apontam 32,2 milhões de gatos no país em 2024, crescimento de 4,5% em relação a 2023. O avanço não pode ser interpretado apenas como sinal de que os gatos estão mais presentes nos lares. Ele também aumenta a responsabilidade sobre a forma como essas relações são construídas. Um animal não é um objeto cuja adequação pode ser avaliada por fotografia, raça ou cor da pelagem. A escolha precisa considerar comportamento, rotina, ambiente e expectativas do futuro tutor. Quanto maior o número de gatos vivendo como animais de companhia, mais inadequado se torna tratar a adoção como uma seleção baseada em atributos visuais.

Existe uma razão concreta para colocar as expectativas no centro desse debate. Um estudo publicado na revista Scientific Reports, que analisou 1.999 registros de adoções em um abrigo dos Estados Unidos entre 2015 e 2019, identificou que devoluções associadas a expectativas irreais dos tutores estavam relacionadas a menor probabilidade de uma nova adoção posterior. Outro estudo, publicado em 2023 na revista Animals a partir da análise de 2.642 gatos de abrigos, encontrou diferentes fatores associados às devoluções e apontou que gatos que haviam passado por lares temporários apresentavam menor risco de retorno. Os trabalhos não permitem transportar esses números diretamente para a realidade brasileira, mas sustentam uma conclusão relevante: quando a expectativa do tutor não corresponde à realidade da convivência, a adoção fica mais vulnerável. Conhecer o animal antes da decisão é uma maneira de reduzir justamente essa distância.

É nesse ponto que a convivência prévia precisa deixar de ser vista como uma etapa opcional ou como uma experiência destinada apenas a quem ainda não sabe qual gato deseja. O encontro permite perceber aquilo que nenhum anúncio consegue entregar integralmente. Um gato pode ser mais reservado do que sua fotografia sugere, procurar contato constantemente, reagir de determinada maneira a outros animais ou precisar de mais tempo para confiar. Do outro lado, a pessoa também descobre seus próprios limites. Pode perceber que a rotina não comporta um animal muito ativo ou que aquele gato inicialmente descartado por ser adulto se adapta melhor ao seu modo de vida. A objeção de que isso torna a adoção mais lenta não se sustenta quando o parâmetro é a duração da relação. Algumas horas de convivência são um investimento pequeno diante de uma responsabilidade que pode acompanhar uma família por muitos anos.

A própria política pública brasileira já reconhece que o problema não termina quando o animal deixa a rua ou o abrigo. O Decreto nº 12.439, de 2025, que criou o Programa Nacional de Proteção e Manejo Populacional Ético de Cães e Gatos, estabelece entre seus objetivos a prevenção do abandono, a redução de animais em situação de rua, o bem-estar e a convivência harmoniosa entre animais e comunidade. O SinPatinhas, por sua vez, passou a permitir o registro de mudanças de responsável, além de informações de saúde e identificação. Isso revela uma mudança necessária de perspectiva: responsabilidade não pode ser medida apenas pelo momento em que alguém assina um termo de adoção. Ela começa na decisão e continua quando surgem as dificuldades que não apareciam no primeiro encontro.

Se a adoção responsável pretende realmente reduzir devoluções e abandonos, precisamos parar de tratar a escolha do animal como uma espécie de catálogo. Aparência pode despertar interesse, mas não deveria determinar a decisão. O critério mais importante é aquilo que acontece quando expectativas dão lugar à convivência. A pessoa precisa conhecer o gato, e o gato precisa ter a oportunidade de revelar seu comportamento antes que ambos sejam colocados dentro de uma relação definitiva. Essa mudança parece simples, mas altera o sentido da adoção: em vez de procurar um animal que corresponda a uma imagem construída previamente, passamos a decidir a partir de uma relação que de fato existe. É nesse deslocamento, da preferência para a compatibilidade, que começa uma adoção verdadeiramente responsável.

Greice Moreti é cofundadora do RONRON CAT CAFÉ, empreendedora e coautora do livro Quem Adotou Quem?, que reúne histórias reais de adoção. Desde 2022, acompanha processos de aproximação, convivência e adoção de gatos, com experiência prática na construção de vínculos entre animais e futuros tutores.

fonte: Mention

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