Pesquisa inédita Futuro Multiespécie investiga tendências que devem mudar a relação entre humanos e não humanos, entre elas o uso da IA para compreender a linguagem animal. Estudo está aberto à participação dos brasileiros

Nas redes sociais, Gugu (@gugu_falador) conquistou uma legião de fãs como um “cão falante”. São 637 mil seguidores no Instagram e outros 684 mil no TikTok acompanhando vídeos em que suas reações ganham voz e são interpretadas a partir do olhar humano. Mas e se, num futuro próximo, fosse possível ir além da brincadeira e compreender melhor o que um cachorro ou outra espécie está comunicando?
A provocação parece ficção científica, mas já mobiliza pesquisadores que utilizam inteligência artificial e bioacústica para identificar padrões na comunicação animal. O tema é uma das frentes do Futuro Multiespécie, estudo inédito realizado no Brasil que busca mapear como a relação entre humanos e não humanos poderá se transformar até 2036.

Coordenada pelo Atelier do Futuro, a pesquisa já realizou 60 entrevistas com especialistas brasileiros e estrangeiros de áreas como arquitetura e design, semiótica, psicologia, psicanálise, biologia, bioética, antropologia, artes e filosofia. Entre os entrevistados está a fonoaudióloga norte-americana Christina Hunger, fundadora do movimento Talk Dog e criadora de um sistema de botões adaptados para a comunicação com cães.

O estudo também ouviu tutores de cães, gatos e outros animais convencionais e não convencionais. Entre os participantes estão responsáveis por alguns dos pets que ganharam projeção nas redes sociais e no audiovisual, como o próprio Gugu; a Suri, cadelinha que atuou no filme Ainda Estou Aqui e na novela Dona de Mim, da TV Globo; e a gatinha Carminha, que participou do filme O Agente Secreto. O diretor e roteirista Diego Freitas, de Caramelo, também integra a lista de entrevistados.

Se eles falarem, estamos preparados para ouvir?

A questão vai muito além de descobrir se um cachorro está pedindo comida, querendo passear ou demonstrando afeto. Projetos científicos já utilizam inteligência artificial para analisar a bioacústica e identificar estruturas e padrões em formas complexas de comunicação de diferentes espécies.

O Earth Species Project (ESP), parceiro do Futuro Multiespécie, está na vanguarda desse movimento. Cofundador da organização, Aza Raskin levou o tema ao palco do SXSW 2026, em Austin, com a apresentação Nature Speaks. Can AI Help Us Listen? (“A Natureza Fala. A IA Pode nos Ajudar a Escutá-la?”). O keynote discutiu justamente como a IA vem sendo usada para decodificar formas de comunicação de outras espécies.

Para Sabrina Dower, cofundadora da Octolab Insights e parceira do Atelier do Futuro no estudo, a discussão ultrapassa a capacidade técnica de “traduzir” animais. A hipótese é que uma das próximas grandes fronteiras da inteligência artificial possa estar não apenas na produção de conteúdos, mas no desenvolvimento de interfaces capazes de ampliar a compreensão humana sobre outras formas de vida.

Há, porém, um limite fundamental: compreender padrões de comunicação animal não significa simplesmente transportar a linguagem humana para outras espécies. Animais se comunicam em frequências, sentidos e escalas temporais diferentes das nossas. O risco, aponta Sabrina, é criar uma falsa sensação de interação — uma espécie de “chatbot da natureza” — que amplie a antropomorfização em vez de proporcionar uma compreensão efetiva do mundo natural.

O mundo quer saber o que os animais têm a dizer

A curiosidade sobre esse futuro já pode ser medida. O estudo global realizado pelo Earth Species Project em parceria com o Collective Intelligence Project ouviu 1.057 pessoas de 67 países, em oito idiomas, para conhecer a percepção pública sobre o uso da IA na compreensão da comunicação animal.

O levantamento revelou que 70% querem saber o que os animais pensam e sentem. Além disso, 94% acreditam que eles possuem emoções próprias, 91% reconhecem formas de linguagem entre outras espécies e 63% acreditam que animais possuem cultura.

A discussão chega também à política e à tomada de decisões: 60% dos participantes estão abertos a alguma forma de participação dos animais nos processos decisórios humanos. O dado indica que compreender melhor outras espécies podem ter consequências que ultrapassam a tecnologia e alcançam campos como legislação, ética e governança.

Para Jane Lawton, Diretora de Impacto Estratégico do Earth Species Project, a IA pode funcionar como uma ferramenta capaz de ampliar aquilo que conseguimos perceber sobre outras formas de vida e, ao mesmo tempo, recuperar uma conexão que teria sido enfraquecida ao longo da história.

“Acreditamos que a IA é um catalisador para ajudar os seres humanos a relembrar o que um dia soubemos e provavelmente ainda sentimos de forma inata: que estamos profunda e intrinsecamente conectados a todo o resto da vida”, afirma Jane.

Essa mudança de perspectiva está no centro do Futuro Multiespécie. Mais do que perguntar “o que os animais diriam se pudéssemos entendê-los?”, o estudo propõe uma questão ainda maior: o que nós, humanos, faremos se nossa capacidade de escutá-los aumentar?

Brasileiros podem participar da pesquisa

O Futuro Multiespécie entra agora em uma etapa aberta ao público. Brasileiros de todo o país podem responder a um questionário, com duração aproximada de 10 minutos, sobre comunicação animal, inteligência artificial, direitos, consumo e outros temas que podem transformar a convivência entre espécies na próxima década. Basta acessar: https://tally.so/r/7RO5kz.

A participação também é uma forma de contribuir para um projeto independente brasileiro e ajudar a causa animal. O estudo destinará 5% dos rendimentos à Mercy For Animals, organização parceira da iniciativa e que atua pelo fim da exploração de animais para alimentação. Também integram o projeto o Projeto Draft, Octolab Insights e Earth Species Project. A divulgação dos resultados está prevista para o final deste ano.

Do debate no Brasil ao SXSW 2027

O Futuro Multiespécie já passou por importantes espaços de discussão sobre futuro, inovação e novas relações entre sociedade e natureza. O estudo foi apresentado no 3º Fórum Brasileiro de Direitos da Natureza, em Mariana (MG), e no Brasil Futures Forum, realizado no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro. Em 30 de outubro, integra a programação da Matilha Cultural, em São Paulo.

A projeção do trabalho também ultrapassou as fronteiras brasileiras. O Futuro Multiespécie foi pré-selecionado para o SXSW 2027, na categoria Tecnologia & IA. Caso avance na seleção, o estudo será apresentado em março de 2027, no Texas (Estados Unidos), em um dos principais ecossistemas globais de inovação, criatividade, tecnologia e negócios.

Sobre o Atelier do Futuro

O Atelier do Futuro é um bureau de inteligência estratégica, análise cultural e mapeamento de cenários futuros, com 13 anos de atuação. A consultoria é reconhecida por traduzir o rigor do debate acadêmico, tendências de vanguarda e causas em insights práticos para marcas, tomadores de decisão e governos.

Sua atuação inclui o debate público do projeto Renda Básica de Cidadania, em parceria com o senador Eduardo Suplicy e a Associação Nacional de Renda Básica; a coordenação do lançamento editorial e da agenda da obra O Futuro Chegou, do sociólogo italiano Domenico De Masi; e a curadoria de grandes espaços de debate cultural, como os festivais Path e Criativar e o Drinkfinity Lab (O Futuro da Água).

Fonte: Atelier do Futuro

Créditos: Divulgação

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui