Para o Dia Nacional da Saúde Única, em 3 de novembro, pesquisadora brasileira destaca o papel dos equinos na saúde pública e na pesquisa de medicamentos

Os cavalos já são parceiros da saúde humana em diferentes frentes. Eles participam de práticas como a equoterapia e também contribuem para a produção de soros antiofídicos. Porém, grande parte da população desconhece o papel dos equinos na vigilância em saúde. A perda de coordenação, a dificuldade para se alimentar ou a incapacidade de permanecer em pé em um cavalo exigem atendimento veterinário imediato. Além de ameaçar a vida do animal, esses sinais podem, dependendo do diagnóstico, alertar para a circulação de agentes infecciosos que também atingem pessoas. Investigar o que acontece nas propriedades rurais pode, assim, ajudar a orientar ações de saúde pública. Essa conexão está no centro da Saúde Única, abordagem que integra saúde humana, animal e ambiental. No Brasil, a Lei 14.792 instituiu 3 de novembro como o Dia Nacional da Saúde Única, uma oportunidade para discutir como o diagnóstico veterinário, a vigilância epidemiológica, e a pesquisa científica se complementam.

Para Izabela Rocha, médica-veterinária e pesquisadora em medicina equina, essa relação aparece tanto no atendimento aos animais quanto nos estudos de novos medicamentos. Com experiência em clínica e neurologia equina, a brasileira atua como responsável técnica veterinária e pesquisadora clínica na East Tennessee Clinical Research, nos Estados Unidos. Sua trajetória ajuda a explicar duas contribuições da medicina equina: identificar riscos sanitários compartilhados e produzir conhecimento para o desenvolvimento de fármacos.

Um episódio em Santa Helena de Goiás ilustra por que a investigação veterinária pode mobilizar também os serviços de saúde humana. Em setembro de 2026, sete cavalos morreram em uma fazenda de Santa Helena de Goiás, onde houve confirmação de raiva. Segundo as informações divulgadas sobre o episódio, a confirmação laboratorial ocorreu em um dos animais; as demais mortes foram tratadas como suspeitas. Três trabalhadores que tiveram contato com os cavalos passaram a ser acompanhados pela Vigilância Epidemiológica. A raiva é uma zoonose transmitida principalmente pela saliva e torna-se quase invariavelmente fatal depois do aparecimento dos sinais clínicos. O caso reforça a importância da vacinação dos animais e da notificação rápida. Pessoas que sofreram mordidas ou tiveram contato com saliva de um animal suspeito com mucosas ou feridas devem procurar prontamente um serviço de saúde para avaliação, sem aguardar sintomas.

“A vacinação antirrábica é altamente eficaz em todas as espécies domésticas, e imunizar esses animais também protege a saúde humana. Em pessoas, a profilaxia pré-exposição é indicada conforme a análise de risco, como ocorre com médicos-veterinários e outros profissionais da saúde. Como a maior parte da população não recebe essa vacinação, permanece mais vulnerável se exposta ao vírus da raiva”, explica Izabela.

Izabela Rocha é médica-veterinária e pesquisadora em medicina equina

Nas infecções pelo vírus do Nilo Ocidental e nas encefalites equinas do leste e do oeste, os cavalos podem atuar como sentinelas: o diagnóstico nos animais ajuda a revelar a circulação viral e a orientar a investigação na região. Nesses ciclos, aves e mosquitos têm papel central, enquanto equinos e pessoas são hospedeiros acidentais. A encefalite equina venezuelana requer uma distinção: em determinados ciclos epidêmicos, equinos infectados podem amplificar o vírus e favorecer sua transmissão por mosquitos. Em 2025, por exemplo, a Fiocruz confirmou três casos humanos de encefalite equina venezuelana em moradores de Tabatinga, no Amazonas, segundo alerta da Secretaria Municipal de Saúde. O registro reforça a necessidade de vigilância integrada, mas não demonstra, por si só, participação de cavalos na transmissão desses casos.

O vírus do Nilo Ocidental oferece um exemplo concreto dessa contribuição. Seu primeiro isolamento no Brasil foi realizado a partir de um cavalo com sinais neurológicos no Espírito Santo, em 2018. O achado ajudou a documentar a circulação do agente no país e mostra como a investigação de doenças em animais contribui para conhecer riscos compartilhados com a população humana. Em 2026, quatro casos humanos foram confirmados no país, dois em Santa Catarina e dois em São Paulo.

Essas diferenças tornam o diagnóstico indispensável. Sinais neurológicos semelhantes podem ter causas e implicações sanitárias distintas; reconhecer o agente permite orientar a assistência ao animal, as medidas de prevenção e a avaliação de possíveis exposições humanas.

Além de ajudar a reconhecer ameaças infecciosas, a medicina equina contribui para investigar novos medicamentos que possam ser utilizados em humanos e outros animais domésticos. Esse trabalho exige compreender tanto o potencial dos compostos quanto os limites de cada resultado. Izabela é a primeira autora de um estudo publicado em 2026 no American Journal of Veterinary Research sobre os bumped kinase inhibitors (BKIs), compostos experimentais estudados contra parasitas do grupo dos apicomplexos. A pesquisa comparou três compostos e investigou sua distribuição no organismo de cavalos saudáveis. O BKI-1708 se destacou pela atividade em laboratório contra o Sarcocystis neurona, principal agente da mieloencefalite protozoária equina (EPM).

A EPM não é uma zoonose, mas compromete a coordenação e a força dos cavalos, e os sinais clínicos são indistinguíveis de outras doenças neurológicas. No estudo, não foram identificados efeitos adversos nas condições avaliadas, mas a concentração do BKI-1708 no sistema nervoso central ficou cerca de 25 vezes abaixo da observada no plasma e não atingiu o nível terapêutico esperado. Esse resultado foi surpreendente, pois difere do que foi observado em estudos prévios em animais de laboratório. Os resultados justificam investigar uma possível aplicação preventiva e o uso contra doenças sistêmicas por apicomplexos em equinos e humanos.

A contribuição para a Saúde Única está no conhecimento que pode orientar outras pesquisas. O estudo faz parte de uma iniciativa mundial, e apesar de não ter avaliado a eficácia nem segurança do composto em pessoas, outros grupos de pesquisa envolvidos nesse projeto focam exatamente nesse aspecto.

“Embora o nosso estudo não comprove a eficácia clínica contra a EPM nem a segurança para uso rotineiro, os resultados evidenciam como cada espécie animal metaboliza medicamentos de forma diferente. Os BKIs também estão sendo estudados para o tratamento da malária e da criptosporidiose, que são consideradas doenças tropicais negligenciadas”, explica Izabela.

Essa integração começa no campo, com o reconhecimento e a investigação de sinais clínicos, e avança nos laboratórios, onde cada resultado ajuda a definir medidas de saúde pública ou novas áreas de pesquisa.

Sobre Izabela Rocha

Izabela Rocha é médica-veterinária e pesquisadora em medicina equina, formada pela Universidade Federal de Lavras (UFLA). Fez residência em clínica médica de equinos na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), doutorado e pós-doutorado na University of Kentucky. Pesquisou diagnóstico, tratamento e patologia da EPM no Gluck Equine Research Center e atualmente atua como responsável técnica veterinária e pesquisadora clínica na East Tennessee Clinical Research, organização dedicada ao desenvolvimento de medicamentos veterinários nos Estados Unidos.

Fonte: Sua Nova Ideia

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