Pesquisadora em Mieloencefalite Protozoária Equina (EPM) mostra por que diagnóstico de doenças neurológicas exige mais do que um resultado laboratorial isolado

Um exame de sangue pode apresentar resultado positivo e, ainda assim, não ser suficiente para confirmar que um cavalo está com uma doença neurológica. A explicação está na forma como essas enfermidades são investigadas: o resultado precisa ser interpretado junto ao histórico e aos sinais clínicos.

A avaliação neurológica ajuda a direcionar essa investigação. Alterações de equilíbrio, coordenação, postura, força e movimentação dos membros podem indicar comprometimento do sistema nervoso. O exame neurológico também contribui para diferenciar sinais que podem ser confundidos com problemas musculares ou ortopédicos, evitando que uma alteração de origem neurológica seja tratada inicialmente como outro tipo de lesão. A observação clínica detalhada, portanto, ajuda a determinar se existe uma alteração real e quais exames podem contribuir para esclarecer sua origem.

A mieloencefalite protozoária equina (EPM) é um dos exemplos que ajudam a explicar esses desafios. Cavalos podem entrar em contato com os protozoários associados à doença e desenvolver anticorpos sem necessariamente apresentar manifestações clínicas. Por isso, a presença desses anticorpos no sangue não significa automaticamente que o animal esteja com uma doença neurológica ativa. A diferenciação entre ter sido exposto ao agente e efetivamente desenvolver a enfermidade é uma das principais questões durante a investigação.

Quem acompanha de perto essa relação entre exposição a patógenos e evolução clínica é Izabela Rocha, médica-veterinária e pesquisadora em medicina equina. Sua trajetória inclui trabalhos dedicados ao diagnóstico, tratamento e patologia da EPM, além de estudos relacionados ao desenvolvimento de medicamentos veterinários.

“Um resultado positivo no sangue mostra que o cavalo teve contato com o agente causador da doença e desenvolveu uma resposta imunológica, mas isso não significa, sozinho, que ele esteja com uma doença neurológica ativa. Em algumas regiões do Brasil e Estados Unidos, a maioria dos cavalos são soropositivos, porém menos de 1% desses animais desenvolvem EPM. Por isso, é fundamental interpretar esse resultado dentro do quadro clínico e avaliar outros fatores de risco”, explica Izabela.

Uma publicação do The Horse sobre doenças neurológicas em cavalos destaca justamente a importância do exame neurológico completo e aponta que, em casos de EPM, um diagnóstico confiável pode exigir mais do que a sorologia. A comparação entre os níveis de anticorpos no sangue e no líquido cefalorraquidiano (LCR, também conhecido como líquor) é necessária para diferenciar uma exposição anterior ao agente de uma doença ativa.

Izabela participou do desenvolvimento do exame utilizado nessa comparação de níveis de anticorpos, chamado de SAG ELISA e oferecido comercialmente nos Estados Unidos pelo Equine Diagnostic Solutions (EDS) e pelo Laboratório Paddock no Brasil. O LCR circula ao redor do cérebro e da medula espinhal e pode fornecer informações que não aparecem em uma análise exclusivamente sanguínea. Segundo Izabela, “No caso da EPM, níveis de anticorpos proporcionalmente maiores no LCR do que no sangue indicam que a infecção atingiu o sistema nervoso central, potencialmente causando sinais neurológicos”. Portanto, a relação entre os resultados obtidos no soro e no LCR ajuda a tornar a investigação mais específica e a avaliar se existe evidência de uma resposta imunológica relacionada ao sistema nervoso.

Esse cuidado é importante porque os sinais de um problema neurológico nem sempre são causados pela EPM. Mudanças discretas na marcha, dificuldade para manter o equilíbrio, tropeços, fraqueza ou alterações de coordenação podem ser causadas por outras doenças, como intoxicações, encefalites virais, Síndrome de Wobbler, ou condições degenerativas.

Em outra publicação, o The Horse explora como um diagnóstico preciso de EPM afeta o custo total do tratamento dessa doença. A coleta de LCR requer uma punção lombar, procedimentos de média complexidade que nem todos os veterinários de equinos estão familiarizados. Portanto, muitos escolhem apenas submeter o sangue para análise. Segundo o artigo do The Horse, o tratamento baseado apenas nos resultados de sorologia aumenta em até 88% o custo total do manejo de doenças neurológicas devido ao diagnóstico pouco preciso. “O tratamento da EPM é altamente específico e não afeta a evolução de outras doenças neurológicas. Logo, a falta de resposta ao tratamento demanda que todo o processo de diagnóstico seja refeito, aumentando os custos e diminuindo a chance de recuperação do cavalo”, enfatiza Izabela.

Na neurologia, o diagnóstico precisa ser construído a partir de um conjunto de informações. Não é suficiente encontrar um marcador positivo e assumir que ele explica todos os sinais apresentados pelo animal. É preciso avaliar o histórico do paciente, realizar uma avaliação sistemática do sistema neurológico, e compreender quais alterações estão presentes. Em seguida, a realização de exames complementares pode esclarecer a origem do problema. Dessa forma, é possível definir um plano de tratamento que realmente controle a evolução dos sinais neurológicos. Uma intervenção precisa e precoce, seguida por protocolos de fisioterapia, é a chave para a recuperação do animal.

Fonte: Sua nova Ideia

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