Levantamento indica que tutores idosos chegam mais pela urgência, enquanto faixas etárias mais jovens acessam a clínica de forma programada
O envelhecimento da população brasileira começa a expor gargalos pouco discutidos no acesso à saúde veterinária. Uma análise interna da WeVets, maior grupo de saúde veterinária do Brasil, revela que, entre tutores acima de 60 anos, os atendimentos se concentram proporcionalmente mais no pronto-socorro do que na clínica geral, enquanto, entre tutores mais jovens, o fluxo é majoritariamente eletivo e programado.
Embora representem uma parcela menor do volume total de atendimentos, os tutores idosos apresentam um padrão distinto de acesso ao cuidado veterinário. A distribuição interna dos atendimentos desse grupo indica maior peso relativo de casos de urgência, em contraste com faixas etárias como a de 30 a 50 anos, que mantêm comportamento mais estável e preventivo ao longo do ano.
Segundo a WeVets, esse movimento não está associado a menor cuidado com os pets, mas a barreiras estruturais de acesso ao sistema de saúde veterinária. Limitações de locomoção, dependência de terceiros para transporte e dificuldades no uso de canais digitais de agendamento tendem a retardar a busca por atendimento clínico inicial entre tutores idosos. Nesse contexto, a ausência de caminhos acessíveis, como atendimento presencial facilitado, suporte telefônico e apoio humano contínuo, faz com que situações que poderiam ser acompanhadas de forma eletiva evoluam para quadros de urgência. Para esse público, a presença de canais tradicionais e de acolhimento humano segue sendo um diferencial decisivo no acesso ao cuidado.
“O dado chama atenção porque mostra que o problema não é a ausência de vínculo com o cuidado veterinário, mas o caminho até ele. Quando o acesso é mais difícil, o tutor chega mais tarde e isso muda completamente o tipo de atendimento necessário”, explica o médico-veterinário da WeVets, Gustavo Gonçalves.
Os dados reforçam a importância de modelos de cuidado contínuo, com múltiplas portas de entrada e suporte além do atendimento emergencial. Do ponto de vista sistêmico, a concentração de tutores idosos no pronto-socorro tem efeitos que vão além do indivíduo: atendimentos emergenciais tendem a ser mais complexos, demandam mais recursos assistenciais e operacionais e, em muitos casos, poderiam ser evitados com acompanhamento precoce e acesso facilitado ao cuidado clínico.
“Pensar em saúde veterinária passa também por pensar em acesso, usabilidade e acompanhamento ao longo do tempo. À medida que os tutores envelhecem, o sistema precisa estar preparado para cuidar antes que a urgência se imponha”, conclui o especialista.
Fonte: Focal 3














