A suspensão europeia das importações brasileiras deveria provocar uma discussão que vai muito além do comércio: que tipo de vida estamos oferecendo aos animais que sustentam uma das maiores indústrias do país?
Por Cristina Diniz, diretora geral da Sinergia Animal no Brasil
O Brasil está discutindo a suspensão das importações de carne pela União Europeia como uma questão comercial. Fala-se em barreira, exportações, prejuízos, competitividade e na necessidade de recuperar o acesso a um dos mercados mais exigentes do mundo.
Mas existe uma pergunta que quase não aparece nessa discussão: o que acontece com os animais antes que sua carne chegue a esse mercado?
Porque, antes de virar commodity, exportação, faturamento ou estatística da balança comercial, existe um animal que nasce dentro de um sistema desenhado para produzir o máximo possível. Que pode ser submetido a confinamento, alta densidade, transporte, estresse, doenças, procedimentos dolorosos e intervenções medicamentosas. Um animal cuja vida é, do começo ao fim, condicionada por uma equação econômica.
A partir de 3 de setembro, a União Europeia suspenderá as importações de carne brasileira em razão da falta de garantias sobre a conformidade do país com as regras europeias relativas ao uso de antimicrobianos.
É uma decisão sanitária. Mas ela deveria provocar uma discussão muito maior sobre a forma como produzimos animais no Brasil.
O antibiótico não é o problema. Mas pode ser um sintoma.
É importante dizer o óbvio: antibióticos e outros antimicrobianos têm uma função legítima e indispensável na medicina veterinária. Animais doentes precisam ser tratados.
O problema surge quando medicamentos deixam de ser apenas uma ferramenta terapêutica e passam a integrar a lógica de produção.
A Organização Mundial da Saúde recomenda a redução global do uso de antibióticos em animais destinados à produção de alimentos e destaca que medidas como higiene, vacinação e prevenção devem ser usadas para reduzir o risco de infecções e, consequentemente, a necessidade de antimicrobianos.
Não estamos falando, portanto, de uma questão meramente comercial.
A resistência antimicrobiana está entre as maiores ameaças globais à saúde pública. Segundo a OMS, a resistência foi associada a quase 5 milhões de mortes no mundo em 2019. A organização também defende a redução do uso de antimicrobianos nos sistemas agroalimentares e uma utilização prudente e baseada em evidências na saúde animal.
O próprio Ministério da Agricultura reconhece que o uso responsável de antimicrobianos é importante tanto para a saúde e o bem-estar dos animais quanto para conter a resistência dos microrganismos.
Então, por que um sistema de produção precisa recorrer a tantos mecanismos de controle depois que o animal já adoeceu, em vez de investir primeiro nas condições que ajudam a mantê-lo saudável?
O que o Porcos em Foco já vem mostrando
Muito antes da questão dos antimicrobianos se transformar em uma barreira para a entrada de produtos brasileiros no mercado europeu, ela já era acompanhada como uma questão de bem-estar animal e de saúde única.
O Porcos em Foco — Monitor da Indústria Suína Brasileira, publicado anualmente pela Sinergia Animal, avalia justamente o que as principais empresas do setor estão fazendo — e prometendo fazer — para melhorar as condições de vida dos animais.
Na edição de 2025, o uso não terapêutico de antimicrobianos foi analisado em três frentes diferentes: promoção de crescimento, uso profilático e uso metafilático. A metodologia considerou que essas práticas deveriam ser eliminadas para estimular que os medicamentos fossem utilizados exclusivamente no tratamento de animais doentes.
Os resultados são reveladores.
No caso do uso de antimicrobianos como promotores de crescimento, apenas seis das 16 empresas avaliadas — Ecofrigo, MBRF, JBS, Pamplona, Alibem e Master — tinham políticas consideradas adequadas para abolir essa prática. As outras dez ainda não haviam publicado compromisso nesse sentido.
Quando se olha para o uso profilático, o cenário é ainda mais restritivo: somente a Ecofrigo havia assumido publicamente o compromisso de banir essa prática até 2027. MBRF, JBS, Pamplona, Alibem, Master, Aurora, Frimesa, Pif Paf, Coopavel, Ceratti, Frivatti, Nutribras, Palmali e Gran Corte ainda não haviam publicado compromisso para eliminá-la.
Para o uso metafilático, o resultado era semelhante: somente a Ecofrigo havia assumido publicamente o compromisso de bani-lo até o final de 2027. O Minerva mencionava um compromisso, mas limitado a 80% de sua rede de fornecedores e com prazo até 2040 — condições que fizeram com que não pontuasse nesse critério.
Ou seja: em 2025, entre as 16 empresas avaliadas pelo Porcos em Foco, uma única havia assumido compromissos públicos considerados adequados pela metodologia para eliminar os três usos não terapêuticos de antimicrobianos.
Esse é um retrato de como a indústria brasileira ainda enfrenta o problema.
O problema não começa no antibiótico
Quando um animal recebe um medicamento, estamos olhando para o fim de uma cadeia de acontecimentos.
Antes disso, existe o ambiente em que ele vive. A densidade. O espaço disponível. O manejo. O nível de estresse. A possibilidade de expressar comportamentos naturais. A exposição a doenças. A capacidade do sistema de prevenir problemas sem depender sistematicamente de medicamentos.
O Porcos em Foco parte justamente dessa visão mais ampla.
Na edição de 2025, o relatório passou a separar os três diferentes usos não terapêuticos de antimicrobianos e reconheceu que eles deveriam ser analisados individualmente. A lógica é clara: não basta perguntar se uma empresa “usa antibióticos”. É preciso saber para quê, em quais circunstâncias e se existem compromissos concretos para eliminar usos que não sejam terapêuticos.
A metodologia que será utilizada no Porcos em Foco 2026 aprofunda ainda mais essa lógica.
Em vez de olhar apenas para compromissos, a nova metodologia passa a diferenciar a implementação atual de compromisso público.
A mensagem é simples: Não basta dizer que mudou. É preciso demonstrar que mudou.
Essa mudança metodológica é particularmente importante neste momento.
Porque a discussão que agora chega ao centro do comércio internacional é justamente uma discussão sobre garantias, evidências e capacidade de demonstrar que as regras estão sendo cumpridas.
O que a União Europeia está colocando na mesa como exigência sanitária encontra, portanto, um paralelo em uma discussão que a sociedade civil já vinha fazendo com as próprias empresas brasileiras: qual é a política de uso de antimicrobianos? O que já foi efetivamente eliminado? O que ainda é praticado? Qual é a abrangência do compromisso? E que evidências existem para demonstrar que ele está sendo cumprido?
O animal virou uma unidade de produção
Antes de tudo, essa é uma discussão sobre como os animais são criados.
O modelo industrial de produção animal foi construído sobre uma promessa: produzir mais, mais rápido e a menor custo. Mais carne, mais ovos, mais leite, mais animais por unidade de espaço, mais eficiência por cadeia.
Quando um animal é transformado em uma unidade produtiva, sua capacidade de se movimentar, descansar, explorar o ambiente, expressar comportamentos naturais e viver sem dor ou sofrimento pode passar a ser avaliada a partir de uma pergunta muito diferente: quanto isso custa para a produção?
É aí que a discussão sobre bem-estar animal deixa de ser periférica.
Porque um animal é um ser senciente, que sente dor, sente medo e sente estresse. Ele adapta-se, sofre e responde às condições em que é mantido.
E, ainda assim, boa parte da indústria continua tratando essas necessidades como uma variável secundária diante da produtividade.
Quanto sofrimento estamos dispostos a aceitar como “custo” para produzir carne em escala?
O Brasil conhece essa lógica há décadas
Talvez o melhor exemplo esteja longe das granjas e dos frigoríficos. Está no mar.
A exportação de animais vivos é uma das expressões mais explícitas de um sistema que transforma animais em mercadoria. Em vez de transportar carne refrigerada, o Brasil embarca o próprio animal e o transforma em carga.
Em 2024, mais de 1 milhão de bovinos vivos foram exportados pelo país, segundo dados reportados a partir de informações de comércio exterior. E os dados obtidos via Lei de Acesso à Informação mostram que, entre janeiro de 2020 e março de 2025, mais de 2,3 mil bovinos morreram durante o transporte marítimo. Foram 393 viagens, das quais 306 registraram mortes — cerca de 78% das travessias.
Em uma viagem do navio Nada, em 2024, 108 animais morreram durante uma travessia de aproximadamente uma semana com quase 23 mil bovinos a bordo.
E isso não começou agora.
Em 6 de outubro de 2015, o navio Haidar naufragou no Pará com quase 5 mil bois vivos a bordo. Os animais morreram e o acidente também provocou o derramamento de aproximadamente 700 mil litros de resíduos oleosos, tornando-se um dos maiores desastres socioambientais da região. Dez anos depois, o caso ainda gerava ações judiciais e discussões sobre os impactos da atividade.
O mais perturbador talvez seja que a atividade continuou crescendo.
Em vez de olhar para esses episódios como sinais de que existe algo estruturalmente errado, o país continuou tratando a exportação de animais vivos como mais uma modalidade comercial.
O animal embarca, o navio parte, a mercadoria chega e o sofrimento fica invisível no caminho.
Quando o animal vira carga, a lógica fica evidente
A exportação de animais vivos é um problema diferente do uso de antimicrobianos.
Mas os dois fenômenos revelam a mesma lógica: quando o animal é tratado primordialmente como mercadoria, suas necessidades passam a ser subordinadas à eficiência econômica.
No transporte marítimo, o animal vira carga. Na produção intensiva, vira unidade produtiva. No mercado, vira produto.
E quando algo dá errado, quase sempre a primeira pergunta é “quanto custa”?
Quanto custa adaptar o sistema, reduzir a densidade, eliminar gaiolas, melhorar o manejo?
Raramente começamos pela pergunta que deveria estar no centro: quanto custa para o animal continuar vivendo nessas condições?
A decisão europeia deveria nos fazer perguntar o que estamos fazendo antes de precisar do medicamento.
Estamos prevenindo doenças? Estamos criando condições que permitam aos animais manter sua saúde? Estamos reduzindo fatores de estresse? Estamos considerando comportamento natural? Estamos utilizando sistemas de criação que respeitam as necessidades biológicas dos animais?
Ou estamos tentando fazer com que animais geneticamente selecionados para produzir cada vez mais, confinados em sistemas cada vez mais eficientes, permaneçam produtivos pelo tempo necessário para completar seu ciclo econômico?
Essa diferença é fundamental.
E quem paga a conta?
Quando uma cadeia produtiva enfrenta uma barreira sanitária, o debate rapidamente se transforma em números.
Em 2025, as exportações do agronegócio brasileiro alcançaram US$ 169,2 bilhões. A carne bovina bateu recordes, com US$ 17,9 bilhões em receitas e aumento de 20,4% no volume exportado, segundo o Ministério da Agricultura.
Ser líder mundial em produção não deveria significar apenas produzir mais. Deveria significar ser capaz de estabelecer padrões mais altos.
O Brasil pode continuar tratando essa vida como um custo necessário para produzir proteína em escala ou pode reconhecer que uma indústria verdadeiramente moderna não é aquela que apenas consegue produzir mais. É aquela que consegue produzir sem transformar o sofrimento dos animais em parte invisível da sua eficiência.
Fonte: DePropósito Comunicação de Causas














