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Em encontro inédito, especialistas, parlamentares e entidades alertam para os impactos da operação sobre concentração de mercado, concorrência, preços e bem-estar animal

A audiência pública promovida nesta sexta-feira (17) pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) para discutir a fusão entre Petz e Cobasi entrou para a história do órgão como um marco no debate sobre concentração de mercado no Brasil. A sessão, presidida pelo conselheiro e relator do caso, José Levi Mello do Amaral Júnior, reuniu especialistas, associações, parlamentares e representantes das próprias empresas, e escancarou os riscos que a operação representa para a livre concorrência, o equilíbrio do setor pet e o bem-estar animal.

Responsável técnica do Instituto Caramelo, Marília Lima esteve presente no encontro e enfatizou que, quando a entidade tomou ciência sobre a fusão entre Petz e Cobasi, a expectativa era de que o processo não avançasse.

“Quando foi divulgada a aprovação da fusão sem restrições, nos posicionamos contra esse possível monopólio. O retrocesso a partir da fusão seria avassalador para quem busca democratizar o acesso aos recursos pets: o mercado feito por pequenos negócios ficaria fadado ao fracasso diante de tamanha deslealdade”, afirmou, lembrando que, em julho deste ano, a ONG lançou um abaixo-assinado contra a operação, que, em poucas semanas, reuniu mais de 16 mil assinaturas.

Marília destacou ainda que a preocupação do Instituto Caramelo com o comportamento das duas empresas vem de longa data: “Sempre questionamos a procedência dos animais que a Petz vendia em suas lojas. Em fevereiro de 2019, fomos acionados pela Polícia Ambiental para apoiar um resgate de um canil clandestino com 1.707 animais em condições deploráveis”.

Durante a operação, a ONG encontrou um contrato de devolução de animal com defeito, assinado e com o CNPJ da rede Petz, recordou Marília: “Levamos o caso à sociedade civil por meio das redes sociais. Diante da pressão, a Petz anunciou o fim da venda de filhotes de cães. Na época, a Cobasi nos apoiou com doações para viabilizar o resgate. Mas a postura da Petz foi direcionar sua energia à gestão de crise da imagem, e não às mais de 1.700 vidas exploradas. Desde então, não tivemos mais relação”.

A responsável técnica contou que a ONG manteve um bom relacionamento com a Cobasi, ainda que pontual, o que se encerrou em 2024: “O escândalo da morte de animais em uma loja afetada da Cobasi pelas enchentes do Rio Grande do Sul nos apavorou. Um mês depois, veio o anúncio da fusão, e decidimos encerrar essa colaboração”.

O relato da técnica contrastou com a reação do CEO da Petz, Sérgio Zimerman, que riu ao final de sua fala: gesto que simbolizou o distanciamento entre o discurso corporativo e a gravidade do tema em discussão.

CADE intervém após desvio de foco e reforça natureza concorrencial da discussão

Durante a audiência, várias ONGs convidadas pela Petz e pela Cobasi se posicionaram em defesa das empresas, destacando parcerias e fornecimento de insumos. Contudo, nenhuma delas tocou no mérito central da discussão: os efeitos da fusão sobre a concorrência e o mercado pet como um todo. A presença dessas entidades acabou funcionando mais como um aplauso estratégico às gigantes do setor, sem contribuir para o debate técnico e transparente que a audiência buscou promover.

O desencontro entre as falas das ONGs e o objetivo da audiência levou o presidente da sessão, o conselheiro José Levi Mello do Amaral Júnior, relator do caso, a intervir com um alerta firme:

“Queria aproveitar o ensejo do intervalo entre uma e outra apresentação para realçar, por favor, o item 1.1 do edital que chamou esta audiência pública. A presente audiência pública tem por objetivo colher elementos junto à sociedade para aprofundar o debate sobre os aspectos concorrenciais relacionados ao mercado pet. Eu peço a sensibilidade de todos que vão fazer uso da palavra que tenham como ênfase os aspectos concorrenciais relacionados ao mercado pet. É isto que está em análise no CADE: a rigidez da concorrência. É este o intento da urgência pública, levantar elementos concorrenciais. Então, eu peço a gentileza de quem ainda fará uso da palavra que tenha essa observação em mira: destacar os aspectos concorrenciais com que possam eventualmente contribuir com a análise futura do CADE”.

As deputadas Gisela Simona (União-MT) e Talíria Petrone (PSOL-RJ) reiteraram que a concentração de mercado proposta pela fusão terá efeitos graves para o ecossistema pet brasileiro. Talíria lembrou que mais de 70% das famílias brasileiras têm um pet, o que torna o tema uma das pautas mais populares do país. Segundo a parlamentar, uma decisão equivocada do CADE poderá custar caro para gerações de famílias brasileiras.

“Estamos falando das duas maiores empresas de varejo pet que, em alguns municípios, chegam a representar cerca de 90% do setor. A análise passa a ser dificultada pois deve considerar diferentes escalas: nacional, regional e municipal. O CADE deve avaliar o impacto da fusão na estrutura do mercado, considerando a participação das empresas e outros fatores como o comportamento da demanda”, afirmou a deputada.

A deputada Gisela Simona, por sua vez, lembrou que as duas empresas não compareceram à audiência pública promovida pela Comissão de Defesa do Consumidor da Câmara dos Deputados, em agosto – uma ausência que, segundo ela, representou um desrespeito com o Parlamento, com os especialistas presentes, e sobretudo, com a sociedade. Ela destacou que Petz e Cobasi já dominam de forma expressiva o mercado pet brasileiro, com participação estimada entre 40% e 50%.

“São empresas com estruturas muito semelhantes, que comercializam de tudo – alimentos, brinquedos, acessórios, produtos de limpeza, itens de jardinagem – e operam com lojas de até 3 mil metros quadrados. Quando uma chega a determinada região, a outra logo se instala num raio inferior a 5 km, e juntas acabam eliminando a concorrência local”, afirmou.

Gisela lembrou que, juntas, as empresas movimentam um mercado de cerca de R$ 7 bilhões e somam mais de 480 lojas no país, com forte presença também no varejo online. “Trata-se de uma operação que ameaça a livre concorrência e que pode agravar a crise de abandono de animais. Preço e bem-estar estão diretamente ligados: quem cuida de um pet sabe o quanto isso pesa no orçamento”, concluiu a parlamentar, defendendo que o CADE reavalie a operação e, caso a fusão não seja vetada, que sejam aplicados remédios estruturais e comportamentais para mitigar seus impactos.

Enquanto a deputada Gisela Simona fazia sua intervenção, o CEO da Petz, Sérgio Zimerman, voltou a rir durante a audiência, repetindo o gesto exibido após a fala da porta-voz do Instituto Caramelo.

O CEO da Petz, Sérgio Zimerman, ri durante as intervenções de Marília Lima, do Instituto Caramelo, e da deputada Gisela Simona (União-MT), ambas contrárias à fusão (Divulgação)

O resultado do encontro reforçou que a concentração de mercado proposta vai desencadear um aumento generalizado nos preços de produtos e serviços, ameaçar a sobrevivência de pequenos empreendedores, restringir o acesso da população a cuidados básicos e, como consequência, provocar um crescimento no abandono de animais em um grau nunca antes visto no país.

Sobre o Instituto Caramelo

O Instituto Caramelo nasceu em fevereiro de 2015 a fim de dar voz àqueles que não podem falar! Uma organização não governamental sem fins lucrativos, dedicada ao resgate e cuidado de animais domésticos em situação de maus tratos e abandono. Nosso trabalho não cuida somente dos animais, mas da sociedade como um todo – com foco na saúde pública, controle de zoonoses e a diminuição da taxa de natalidade de animais errantes. Tudo isso através de castrações gratuitas, conscientização da saúde preventiva, vacinação, adoção consciente e educação.

Com um hospital veterinário 24 horas, realizamos intervenções emergenciais, entrada dos resgatados e acompanhamento contínuo até que os animais estejam prontos para adoção responsável. As atividades que desenvolvemos incluem resgates, manutenção de mais de 300 animais, campanhas de castração e atendimentos externos para tutores em situação de vulnerabilidade social.

Como principais resultados de nossas ações, destacamos as boas adoções que conseguimos proporcionar aos mais de 6 mil animais resgatados ao longo desses mais de 10 anos. Nosso objetivo final é que cada animal, sob nossa tutela, encontre um lar onde seja amado e bem cuidado.

Fonte: Avenida Comunicação

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