A organização social Natureza Conecta utiliza a interação humano-animal como recurso terapêutico para abordar traumas e construir vínculos afetivos
Crianças e adolescentes que passaram por abandono, violência ou longos períodos de acolhimento podem enfrentar impactos importantes em sua saúde mental e na capacidade de construir relações de confiança.
Entre os atendidos pela Natureza Conecta estão crianças e jovens em acolhimento institucional de diversas cidades do Estado de São Paulo que participam de intervenções estruturadas de Terapia Assistida por Animais (TAA), trabalho que busca desenvolver confiança, empatia, autorregulação, cuidado e respeito aos limites por meio de interações planejadas com animais.
As atividades são realizadas com animais resgatados, entre cães, cavalos, vacas, bois, cabras e porcos, e contam com o acompanhamento de uma equipe multidisciplinar. De acordo com Laiz Moreno, psicóloga da Natureza Conecta, a chegada a uma família por adoção representa o início de uma nova relação, mas não apaga automaticamente experiências anteriores. Medo de uma nova rejeição, insegurança, dificuldade de confiar são sentimentos que podem acompanhar crianças e adolescentes durante esse processo.
“Essas experiências podem aparecer como desconfiança, dificuldade de vinculação, necessidade de controle ou medo de uma nova ruptura. O trabalho terapêutico não é exigir que a criança confie, mas criar experiências repetidas de segurança e previsibilidade, a partir das quais novos vínculos possam ser construídos”, explica Laiz
Nas atividades de TAA, a aproximação com os animais acontece gradualmente. Observar suas reações, perceber quando aceitam ou recusam contato, respeitar seu espaço e assumir pequenas responsabilidades relacionadas ao cuidado são situações que permitem trabalhar limites, reciprocidade, previsibilidade e segurança.
As interações não são atividades recreativas livres. Cada encontro é estruturado a partir de objetivos terapêuticos e socioemocionais definidos pela equipe técnica. O comportamento dos animais, seus sinais, limites e respostas à aproximação passam a integrar o processo de observação e intervenção.
“Para quem viveu relações marcadas por abandono, violência ou instabilidade, confiar novamente pode ser um processo difícil. A relação com o animal oferece uma experiência diferente: ele responde ao cuidado, estabelece limites, exige atenção aos seus sinais e não impõe julgamentos. É nessa interação que conseguimos trabalhar, de forma concreta, habilidades como empatia, autorregulação, confiança e respeito ao outro”, afirma Daniela Gurgel, médica-veterinária e fundadora da Natureza Conecta.
Atualmente, cerca de 37 mil crianças e adolescentes vivem em serviços de acolhimento no Brasil, segundo o Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA). E de acordo com o Conselho Nacional de Justiça, cerca de 6 mil estão disponíveis para adoção, embora existam aproximadamente 32 mil pretendentes habilitados.
Essa diferença mostra que o desafio é sobretudo lidar com traumas que muitas crianças e adolescentes carregam das histórias de rupturas de vínculos, negligências e que afetam sua saúde mental. É justamente nesse campo que a Natureza Conecta atua.
Quando a relação com um animal abriu espaço para falar sobre uma perda
Uma das experiências acompanhadas pela Natureza Conecta envolveu um menino de sete anos que havia presenciado o assassinato do próprio pai. Ele participava das atividades da organização durante o processo de aproximação com a família que posteriormente o adotaria e ainda enfrentava dificuldades relacionadas à nova configuração familiar e à perda vivida.
Durante esse período, Chico, um galo resgatado que vivia na organização, morreu após ser atacado por um cachorro. A equipe realizou uma despedida do animal com as crianças.
Diante do corpo do galo, o menino perguntou se seria possível abrir seus olhos para que ele voltasse à vida. Logo depois, relacionou aquela situação à própria história e perguntou se seu pai também poderia ter voltado caso seus olhos tivessem sido abertos.
A situação criou uma oportunidade para que a equipe trabalhasse com a criança temas relacionados à morte, ao luto e à sensação de impotência diante da perda.
“O animal muitas vezes cria uma situação concreta a partir da qual a criança consegue expressar algo que ainda não conseguia colocar em palavras. Não é o animal que resolve o trauma ou constrói o vínculo familiar, mas ele pode funcionar como uma ponte para que determinadas emoções sejam reconhecidas e trabalhadas”, explica Daniela.
Para a equipe técnica, situações como essa mostram um dos possíveis mecanismos da interação humano-animal: experiências vividas com os animais podem funcionar como mediadores para a expressão de emoções e para a abordagem terapêutica de conteúdos que, em alguns casos, ainda são difíceis de acessar por meio de uma conversa direta.
Nos meses seguintes, o menino continuou seu processo de aproximação e construção de vínculos com a nova família. Posteriormente, a adoção foi efetivada e, segundo a organização, ele segue vivendo com a família adotiva.
Para Daniela, o caso também ajuda a explicar por que o trabalho da Natureza Conecta ultrapassa o contexto específico da adoção.
“Seja para uma criança que está chegando a uma nova família, seja para um adolescente que deixará uma medida socioeducativa e precisará construir seus próprios vínculos, existe uma questão comum: como criar relações diferentes daquelas marcadas pela ruptura, pela violência ou pela instabilidade? Experiências de cuidado, confiança, segurança e respeito podem contribuir para a construção de novas referências de relacionamento”, afirma.
Sobre a Natureza Conecta
A Natureza Conecta é uma organização sediada em Itu (SP) que atua com terapia assistida por animais e atividades socioemocionais para crianças, adolescentes e jovens em situação de vulnerabilidade social. Em sua fazenda terapêutica, animais resgatados participam de processos conduzidos por equipe técnica, promovendo experiências de vínculo, cuidado, responsabilidade e reconstrução emocional.
Fonte: GBR Comunicação













