Créditos: Divulgação

Por Natália Nigro de Sá*

O Dia das Mães costuma reforçar imagens tradicionais de família, cuidado e vínculo. Mas, aos poucos, outras formas de maternar começam a ganhar espaço, ainda que nem sempre sejam compreendidas.

Entre elas está a chamada “maternidade pet”. O termo pode causar desconforto em alguns contextos, justamente por desafiar uma lógica mais rígida sobre o que define uma mãe. Ainda assim, ele ajuda a nomear uma experiência vivida por muitas mulheres: a de cuidar, proteger e construir vínculos profundos com seus animais de estimação.

Na psicanálise, o conceito de maternagem já se afasta da ideia exclusivamente biológica. O pediatra e psicanalista Donald Winnicott definiu o cuidado materno como um conjunto de práticas relacionadas à proteção, ao afeto e à presença constante. Sob essa perspectiva, maternar está menos ligado à origem biológica e mais à qualidade do vínculo construído no cotidiano.

Quando esse olhar é ampliado, torna-se possível compreender por que tantas pessoas, especialmente mulheres, desenvolvem relações tão intensas com seus pets.

Historicamente, o cuidado foi atribuído ao feminino. Nutrir, acolher, zelar pelo outro, sobretudo por aqueles que não verbalizam suas necessidades, são funções que atravessam gerações como construções sociais. Não é raro, portanto, que esses gestos encontrem continuidade na relação com os animais de estimação.

São vínculos silenciosos, mas profundos. Feitos de rotina, presença e afeto. O problema é que, quando a perda acontece, esse mesmo vínculo costuma ser colocado em dúvida.

O luto por um animal ainda é frequentemente tratado como exagero. A dor é minimizada, o sofrimento é relativizado e, em muitos casos, a pessoa enlutada se vê sem espaço legítimo para expressar o que sente.

A socióloga Nickie Charles, referência nos estudos sobre relações entre humanos e animais, chama atenção justamente para esse ponto. Em suas pesquisas, ela observa que o luto por pets é atravessado por questões de gênero. Para muitas mulheres, além da dor da perda, há também o enfrentamento da deslegitimação desse sofrimento.

Nesse contexto, os rituais de despedida ganham um papel que vai além da cerimônia.

Eles ajudam a dar forma ao vínculo vivido e a reconhecer a importância daquela relação. Funcionam como um espaço simbólico de validação, especialmente quando o entorno social não oferece esse reconhecimento.

Mais do que marcar um fim, esses rituais afirmam que houve ali uma história, um cuidado compartilhado e um afeto real.

Empresas especializadas, como a Laika Funeral Pet, têm observado esse movimento de perto. Ao oferecer despedidas estruturadas e respeitosas, ajudam tutores a atravessar o processo de luto com mais acolhimento e dignidade, reconhecendo que a dor da perda não depende da espécie, mas da intensidade do vínculo.

Em um momento como o Dia das Mães, ampliar o olhar sobre o que significa maternar talvez seja também reconhecer que o cuidado, em suas diferentes formas, continua sendo um dos pilares mais profundos das relações humanas.

E que, quando ele se rompe, o luto merece ser visto, e respeitado, na mesma medida.

* Natália Nigro de Sá é psicóloga, pesquisadora do luto, doutora em Ciências pela Universidade de São Paulo, membro da Ekôa Vet (Associação Brasileira em Prol da Saúde Mental na Medicina Veterinária) e cofundadora da Laika Assistência e Funeral Pet.

Fonte: Lilás Comunicação

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