Créditos: Internet

Caso ocorreu poucos dias após Atlas completar um ano de vida. O labrador estava prestes a iniciar a etapa final de preparação para ajudar uma pessoa com deficiência visual.
Atlas, de apenas um ano, participava de um programa de formação de cães-guia para pessoas com deficiência visual e não resistiu à intoxicação provocada pela cica (Cycas revoluta), considerada uma das plantas ornamentais mais tóxicas para animais.
O que seria apenas mais um passeio pelo condomínio onde vivia terminou em uma tragédia que poderia ter sido evitada.

Atlas, um labrador de apenas um ano de idade que participava de um programa de formação de cães-guia para pessoas com deficiência visual, morreu poucos dias após ingerir um fruto de Cycas revoluta, conhecida popularmente como cica, planta ornamental amplamente utilizada em jardins, praças e condomínios.

O caso passou a integrar o levantamento realizado pelo Jardim do Bicho, projeto brasileiro dedicado à pesquisa e divulgação científica sobre plantas tóxicas no paisagismo, coordenado pela pesquisadora Simone A. Nascimento. A iniciativa reúne casos reais de intoxicação, literatura científica e orientações voltadas à prevenção de acidentes envolvendo plantas ornamentais.

A tutora temporária de Atlas, Maria Júlia Cesarano, moradora de Sorocaba (SP), conta que jamais imaginou que a planta pudesse representar tamanho perigo.

“Eu nunca soube que era uma planta tóxica.”

Atlas fazia parte de um programa social de formação de cães-guia. Durante aproximadamente um ano, os filhotes vivem com famílias voluntárias em uma etapa chamada de socialização, aprendendo a conviver com pessoas, crianças, ambientes urbanos e diferentes situações do cotidiano antes de retornarem para o treinamento especializado.

Segundo Maria Júlia, antes mesmo de receber Atlas, sua residência passou por avaliação da equipe técnica do projeto, que verificou se havia riscos para o filhote.

“Eu retirei as plantas consideradas tóxicas do meu quintal. A única que permaneceu estava nas áreas comuns do condomínio. Nunca imaginei que ela pudesse matar.”

Como cão em formação, Atlas tinha autorização para circular em diversos ambientes públicos usando o colete de identificação. Era um animal ativo, sociável e acostumado a explorar o ambiente.

Na manhã de um sábado, enquanto caminhava pelo condomínio, Atlas encontrou no chão um dos frutos da cica.

A tutora chegou a acreditar que fosse apenas mais um “coquinho”, semelhante a outros que ocasionalmente apareciam no local e que nunca haviam causado problemas.

Menos de uma hora depois, começaram os primeiros sintomas.

Atlas apresentou vômitos intensos e foi imediatamente encaminhado ao hospital veterinário, onde recebeu atendimento de emergência, incluindo lavagem gástrica e internação.

Durante cerca de dez dias, a equipe veterinária tentou reverter o quadro clínico.

Apesar de todos os esforços, a intoxicação evoluiu de forma grave e Atlas morreu.

A perda foi ainda mais dolorosa porque o labrador estava prestes a concluir sua etapa de socialização e seguir para o treinamento definitivo como cão-guia.

“Esse era o propósito de vida dele.”

Após o caso, o condomínio decidiu remover as cicas existentes das áreas comuns. Para Maria Júlia, porém, a conscientização é tão importante quanto a retirada das plantas.

“Uma simples placa de advertência talvez tivesse evitado essa fatalidade. Eu nunca tinha ouvido falar dos riscos da cica.”

Planta comum, risco pouco conhecido
A Cycas revoluta é frequentemente utilizada no paisagismo devido à resistência e ao aspecto ornamental. Entretanto, todas as partes da planta são tóxicas, especialmente as sementes, que possuem coloração alaranjada ou avermelhada e podem atrair cães e crianças.

A ingestão pode provocar vômitos intensos, diarreia, lesão hepática aguda, distúrbios de coagulação, convulsões e morte.

O Jardim do Bicho desenvolveu uma classificação inédita de toxicidade em quatro níveis — Leve, Moderado, Intenso e Potencialmente Fatal — com o objetivo de traduzir o conhecimento científico para uma linguagem acessível a tutores, paisagistas, síndicos e gestores públicos. Dentro dessa classificação, a cica está enquadrada no nível máximo de risco: Potencialmente Fatal.

Segundo a pesquisadora Simone A. Nascimento, responsável pelo projeto, a principal dificuldade é que a planta continua sendo amplamente utilizada sem que seus riscos sejam conhecidos pela população.

“A maioria das pessoas escolhe uma planta pela beleza ou pela resistência, sem jamais receber qualquer informação sobre sua toxicidade. Casos como o do Atlas demonstram que a falta de conhecimento pode ter consequências irreversíveis.”

Embora os casos de intoxicação sejam conhecidos na medicina veterinária, muitas pessoas desconhecem completamente o perigo representado por uma planta presente em milhares de jardins brasileiros.

“A conscientização teria poupado essa fatalidade”, resume Maria Júlia.

Sobre Simone Arthur:

Paisagista, pesquisadora independente e advogada. Sócia da DSN Paisagismo e Consultoria, dedica-se ao estudo da toxicidade de plantas ornamentais e à produção de conteúdo técnico acessível. É a idealizadora do projeto autoral Jardim do Bicho, focado em critérios de segurança para ambientes com animais e crianças.

Fonte: Type

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