Por Ricardo de Oliveira, CEO do Fórmula Pet Shop e Sócio-Diretor de Expansão da Bable Pet*
Existe uma reclamação que escuto praticamente todos os dias de empresários do mercado pet. Falta mão de obra. Falta gente qualificada. Falta comprometimento. Falta profissional disposto a trabalhar.
E eu não discordo que o mercado enfrenta dificuldades reais para contratar. O setor cresce, novas lojas abrem todos os meses, a demanda por veterinários, vendedores, banhistas e gestores aumenta constantemente. Mas depois de mais de vinte anos acompanhando pet shops de todos os tamanhos, cheguei a uma conclusão que incomoda muita gente. Em boa parte dos casos, o problema não é apenas a falta de profissionais. O problema é que estamos colocando as pessoas erradas nas funções erradas.
Já contratou um vendedor extremamente simpático que conversava com todos os clientes, mas não conseguia fechar vendas? Já teve um veterinário brilhante tecnicamente que demonstrava enorme dificuldade para criar relacionamento com os tutores? Já promoveu um excelente funcionário operacional para uma posição de liderança e descobriu poucos meses depois que ele não tinha perfil para gerir pessoas?
Essas situações acontecem diariamente. E normalmente a conclusão do empresário é sempre a mesma. “Contratei errado”. Mas talvez a pergunta correta seja outra. Será que a pessoa realmente estava errada ou apenas ocupava uma função incompatível com suas características comportamentais?
O mercado corporativo já discute esse tema há décadas. No entanto, muitos empresários do setor pet ainda tomam decisões de contratação baseadas exclusivamente em experiência, currículo ou afinidade pessoal. O resultado é previsível. Profissionais frustrados, baixa produtividade, alta rotatividade e a sensação constante de que ninguém serve para a vaga. É justamente nesse ponto que o entendimento dos perfis comportamentais se torna uma ferramenta estratégica.
O perfil colérico, por exemplo, costuma ser movido por desafios, metas e resultados. É aquela pessoa que entra em uma empresa e imediatamente começa a enxergar oportunidades de melhoria. Normalmente possui energia alta, toma decisões rápidas e gosta de assumir responsabilidades. Em contrapartida, pode ter dificuldades com diplomacia, paciência e escuta. Dentro de um pet shop, costuma performar muito bem em funções de liderança, gestão comercial e expansão.
Já o sanguíneo é o oposto em vários aspectos. Tem facilidade natural para criar conexões, construir relacionamentos e estabelecer confiança rapidamente. É aquele profissional que conhece os clientes pelo nome, lembra dos pets, faz amizades e cria vínculos genuínos. Seu desafio costuma estar na organização e no acompanhamento de processos. Não por acaso, costuma se destacar em vendas, recepção, atendimento ao cliente e comunicação.
O melancólico é o profissional dos detalhes. Enxerga erros que passam despercebidos para a maioria das pessoas, valoriza qualidade, precisão e processos bem executados. Em clínicas veterinárias, controle financeiro, estoque e funções técnicas, costuma ser extremamente valioso. O problema surge quando esse perfil é colocado em ambientes que exigem decisões rápidas e improvisação constante.
Já o fleumático traz equilíbrio para a operação. É paciente, estável, colaborativo e raramente perde o controle diante de situações de pressão. Costuma ser um excelente profissional de suporte, assistência e execução operacional. Seu principal desafio normalmente está na velocidade de tomada de decisão e na disposição para lidar com mudanças constantes.
Naturalmente, ninguém é exclusivamente colérico, sanguíneo, melancólico ou fleumático. Somos combinações desses perfis, com características predominantes. O objetivo não é colocar pessoas em caixinhas. O objetivo é entender como elas funcionam melhor. E isso se torna ainda mais importante quando falamos sobre a escassez de mão de obra que tanto preocupa o setor.
Vejo muitos empresários afirmando que não encontram profissionais qualificados, mas poucos se perguntam se estão procurando as características corretas para cada função. Muitas vezes o mercado não está sofrendo apenas com falta de pessoas. Está sofrendo com falta de compatibilidade entre pessoas e cargos.
Quando um vendedor com perfil altamente técnico é colocado para lidar com clientes o dia inteiro, ele tende a sofrer. Quando um profissional extremamente comunicativo assume uma função que exige controle rigoroso de processos, também tende a sofrer. E quando o sofrimento aparece, normalmente ele recebe outro nome. Baixo desempenho. O problema é que desempenho ruim nem sempre significa falta de competência. Muitas vezes significa apenas falta de encaixe.
Essa lógica também vale para sociedades empresariais. Dois sócios extremamente dominantes frequentemente entram em conflito pela liderança. Dois sócios excessivamente cautelosos podem transformar qualquer decisão em um processo interminável. As sociedades mais bem-sucedidas que acompanhei ao longo da carreira quase sempre tinham algo em comum: complementaridade.
Enquanto um traz velocidade, o outro traz análise. Enquanto um gera relacionamento, o outro organiza processos. Enquanto um pensa crescimento, o outro protege a operação.
No final das contas, acredito que o mercado pet precisa amadurecer sua visão sobre gestão de pessoas. A discussão não pode se limitar à falta de mão de obra. Precisamos falar também sobre aproveitamento de talentos. Porque contratar alguém apenas porque gostamos da pessoa durante a entrevista é um dos erros mais caros que uma empresa pode cometer. Afinidade gera simpatia. Resultado gera crescimento. Talvez a pergunta mais importante que um empresário possa fazer antes de contratar seja simples. Essa pessoa realmente tem perfil para a função que vai exercer?
Porque depois de acompanhar centenas de empresas do setor, continuo chegando à mesma conclusão. A maioria dos problemas de equipe não nasce da falta de talento. Nasce da falta de encaixe. E quando a pessoa certa encontra a função certa, quase tudo melhora. A produtividade cresce. Os conflitos diminuem. O clima melhora. Os resultados aparecem. O mercado pet é feito de produtos, serviços e tecnologia. Mas continua sendo construído, todos os dias, por pessoas. E entender as pessoas talvez seja a habilidade mais importante que um empresário pode desenvolver.
*Ricardo de Oliveira é CEO do Fórmula Pet Shop, mentor de empresários do mercado pet e sócio-diretor de expansão da Bable Pet, uma das maiores redes de clínicas veterinárias do Brasil. Com mais de 20 anos de experiência em gestão, vendas e estratégia, já ajudou centenas de empreendedores a transformar lojas em negócios lucrativos e sustentáveis.
Fonte: Mention














