Quadro comum na rotina veterinária, pode envolver diferentes causas e não têm tratamento único; especialistas defendem avaliação nutricional como parte central do diagnóstico e do controle clínico

As enteropatias crônicas estão entre as doenças gastrointestinais comuns em cães e gatos, mas seu diagnóstico e tratamento podem exigir uma combinação de estratégias nutricionais e medicamentosas. A adoção de uma dieta adequada ao quadro de cada animal pode ser a melhor forma de controlar a inflamação e, em determinados casos, reduzir ou até eliminar a necessidade de medicamentos. O tema foi discutido durante o Workshop Online de Nutrição e Enteropatias Crônicas, promovido no dia 26 de agosto, pela Sociedade Brasileira de Nutrição e Nutrologia de Cães e Gatos (SBNutriPet), vinculada ao Colégio Brasileiro de Nutrição Animal (CBNA).

Segundo o presidente da SBNutriPet, Fábio Teixeira, o principal desafio é compreender que as enteropatias crônicas não constituem uma única doença nem admitem uma resposta padronizada. “A nutrição precisa ser incorporada desde o início à investigação clínica, e não apenas quando outros tratamentos deixam de funcionar. O melhor resultado surge da avaliação individualizada e da atuação integrada entre o médico-veterinário que acompanha o quadro gastrointestinal e o profissional especializado em nutrição”, afirma. Para ele, idade, condição clínica, histórico alimentar, exames laboratoriais e resposta às diferentes dietas devem orientar cada decisão.

O Debate
Ao apresentar as atualizações do consenso sobre diagnóstico e tratamento, a médica veterinária especialista em gastroenterologia Ana Rita Pereira destacou que a triagem alimentar é essencial e que animais jovens ou idosos também podem responder às dietas coadjuvantes. A especialista ressaltou a importância de uma anamnese detalhada, incluindo rações, alimentos caseiros, petiscos e qualquer outro item consumido pelo animal. “As enteropatias são doenças comuns, mas não são simples. O paciente é multifatorial e não existe um tratamento único, baseado apenas em dieta, corticoide ou imunossupressor. A doença não tem cura, mas pode ser controlada”, explica.

O professor da Unesp – Campus de Jaboticabal e diretor Técnico do CBNA (Colégio Brasileiro de Nutrição Animal), Aulus Carciofi, mostrou que o intestino atua simultaneamente na digestão, na absorção de nutrientes, na imunidade e na proteção do organismo contra agentes externos. Por isso, a alimentação deve fornecer energia e nutrientes suficientes para a renovação das células intestinais e para a recuperação da mucosa. “Não adianta controlar apenas a inflamação se o organismo não recebe os nutrientes necessários para reconstruir e manter o intestino. A dieta é uma terapia adjunta, que precisa nutrir o animal, preservar a barreira intestinal e reduzir a exposição a componentes que possam desencadear reações”, diz. Ele alertou ainda que dietas caseiras devem ser formuladas de maneira completa e balanceada, evitando deficiências nutricionais.

A professora da UFPR (Universidade Federal do Paraná) Ananda Félix abordou o uso de probióticos, prebióticos e outros bióticos na modulação da microbiota intestinal. De acordo com ela, esses recursos podem contribuir para a saúde gastrointestinal, mas não substituem o controle dos demais fatores envolvidos na doença. A escolha também deve considerar a concentração dos microrganismos ou componentes ativos e a existência de estudos sobre o produto utilizado. “Há evidências de que os diferentes bióticos podem auxiliar a saúde intestinal de cães e gatos, mas é fundamental verificar se o produto comercial possui comprovação científica e compreender que seu resultado depende do controle conjunto da dieta e das demais condições clínicas”, afirma.

Estudo de casos
Os casos apresentados pela médica veterinária Carolina Pappalardo mostraram que a intervenção nutricional pode produzir respostas mesmo em quadros graves. Em um dos animais, diagnosticado com linfangiectasia intestinal e perda importante de proteínas, uma dieta com restrição rigorosa de gordura permitiu controlar a doença e retirar gradualmente os medicamentos. Em outro, a adoção de uma alimentação com proteína hidrolisada reduziu vômitos persistentes e possibilitou a suspensão da imunossupressão. “A nutrição clínica de precisão pode atuar como parte efetiva do tratamento até nas enteropatias mais graves. Quando a dieta é ajustada ao mecanismo da doença e acompanhada de perto, é possível recuperar a qualidade de vida e, em alguns pacientes, manter o controle sem medicamentos”, relata.

A médica veterinária, membro da SBNutriPet, Fernanda Yamamoto ressaltou, porém, que dietas classificadas de forma semelhante podem apresentar diferenças relevantes na quantidade de gordura e fibras, no tipo e no grau de hidrólise das proteínas. Por isso, a ausência de resposta a uma primeira tentativa não significa necessariamente que a estratégia nutricional tenha fracassado. “É necessário observar a composição de cada dieta e acompanhar a resposta do animal. A escolha não deve se limitar ao rótulo hidrolisada ou hipoalergênica, porque produtos diferentes podem produzir respostas clínicas diferentes”, afirma.

O presidente do CBNA, Godofredo Miltenburg, destacou o apoio da entidade ao evento. Para ele, aproximar o conhecimento científico da prática clínica é fundamental para aprimorar o atendimento aos animais. “Ao reunir gastroenterologia e nutrição, o workshop contribuiu para mostrar que decisões baseadas em evidências e no trabalho multidisciplinar podem trazer mais precisão ao diagnóstico e mais segurança ao tratamento”, conclui.

Fonte: Márcia Midori

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