Feiras, exposições, leilões e competições agropecuárias costumam ser apresentados como celebrações da tradição rural, da cultura do campo e da força do agronegócio.
Por Cristina Diniz – Diretora-geral da Sinergia Animal no Brasil
Mas, por trás dos troféus, dos leilões, das fotografias e dos discursos sobre genética e tradição, existe uma realidade que raramente recebe a mesma atenção: animais são retirados de suas propriedades, transportados, confinados temporariamente em ambientes atípicos, submetidos a movimentação intensa e colocados diante de milhares de pessoas para serem avaliados, comparados, premiados e comercializados.
E os acontecimentos recentes da Expointer mostram que os riscos envolvidos nessa lógica não são apenas uma discussão abstrata.
Quatro animais morreram durante a Expointer
A 49ª Expointer, realizada em Esteio, no Rio Grande do Sul, terminou neste domingo, 6 de setembro, depois de receber mais de 938 mil visitantes ao longo de nove dias.
Mas, ainda nos primeiros dias da feira, quatro animais morreram no Parque de Exposições Assis Brasil: três touros da raça Angus e um cavalo.
Os três bovinos apresentaram sinais clínicos agudos e receberam atendimento veterinário, mas não resistiram.
Não é possível afirmar que esses animais morreram por causa da exposição sem os laudos que estabeleçam essa relação.
Mas o que acontece com animais quando são retirados de sua rotina e colocados em ambientes de exposição, competição e intensa movimentação humana?
O estresse não é uma hipótese inventada pelos ativistas
Existe evidência científica sobre os impactos que ambientes de exposição podem produzir.
Uma pesquisa realizada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul avaliou 60 ovinos de 11 raças, realizando 1.097 observações durante cinco dias no próprio Parque Estadual de Exposições Assis Brasil, em 2011.
Os pesquisadores identificaram diferenças significativas entre as raças, especialmente durante a tarde e a noite, quando as temperaturas eram mais altas e os animais ficavam fora de sua zona de conforto. Houve correlação entre a temperatura do ambiente e parâmetros fisiológicos dos animais, incluindo frequência respiratória e temperatura corporal.
O estudo concluiu que as condições ambientais do local poderiam produzir estresse térmico e recomendou o controle das condições ambientais nos galpões para garantir maior conforto aos animais.
E a própria literatura científica sobre exposições agropecuárias aponta uma série de pontos críticos para o bem-estar: transporte, embarque e desembarque, mudança na alimentação e na rotina, ambientes sonoros, visuais e olfativos atípicos, contato com agentes patogênicos e o próprio estresse da exposição.
Ou seja: não estamos falando de uma preocupação criada por quem “não entende do campo”.
Estamos falando de fatores reconhecidos pela ciência veterinária como relevantes para o bem-estar animal.
E houve também um cavalo que disparou
Enquanto três touros e um cavalo morreram durante a feira, outro episódio chamou atenção nas redes sociais.
Durante uma prova de equinos, uma competidora caiu da sela e o cavalo disparou pela pista.
O animal correu em alta velocidade, passou próximo a pessoas e derrubou grades. Houve preocupação de que ele entrasse em uma área onde havia crianças e outros animais se preparando para as provas. Diversas pessoas tentaram contê-lo, até que uma menina de 12 anos conseguiu segurar suas rédeas e interromper o galope.
O episódio terminou sem uma tragédia maior.
Mas deveria nos fazer perguntar: o que significa colocar animais em situações de competição diante de grandes públicos e esperar que eles simplesmente se comportem como peças previsíveis de um espetáculo?
Animais não são máquinas.
Eles podem sentir medo, reagir a estímulos, entrar em estado de estresse. E podem colocar a si mesmos e outras pessoas em risco quando uma situação sai do controle.
O animal não precisa estar ferido para que exista um problema
Quando falamos sobre o uso de animais em feiras e competições, a discussão costuma ser reduzida à existência ou não de maus-tratos evidentes.
Um animal pode estar saudável e continuar sendo instrumentalizado.
Nas competições agropecuárias, características físicas e genéticas deixam de ser apenas características de um indivíduo e se tornam critérios de avaliação. Tamanho. Peso. Musculatura. Conformação corporal. Linhagem. Capacidade reprodutiva. Produtividade.
O corpo do animal passa a carregar uma espécie de currículo.
Quanto mais desejáveis determinadas características forem para os interesses humanos, maior pode ser seu reconhecimento e seu valor econômico.
O animal pode ganhar uma faixa, uma medalha, um prêmio. Pode se tornar referência genética. Pode ser vendido. Pode gerar descendentes considerados mais valiosos.
Seu corpo se transforma em capital.
E é aí que precisamos interromper a narrativa neutra desses eventos.
Estamos avaliando um produto ou um indivíduo?
“Mas é tradição”
Essa é provavelmente uma das respostas mais frequentes. E também uma das mais frágeis.
A tradição explica por que fazemos alguma coisa, mas não explica por que deveríamos continuar fazendo.
Muitas práticas consideradas normais em outras épocas foram abandonadas quando passamos a reconhecer que eram incompatíveis com nossos valores éticos.
A sociedade muda. E nossa compreensão sobre outros seres também muda.
Por isso, “sempre foi assim” não deveria encerrar a discussão. Deveria começar uma pergunta: se hoje sabemos mais sobre a capacidade dos animais de sentir, sofrer, buscar conforto e evitar situações negativas, ainda devemos reproduzir automaticamente as mesmas práticas?
Não precisamos esperar uma tragédia para questionar
Os quatro animais mortos na Expointer e o episódio do cavalo que disparou não deveriam ser tratados como acontecimentos irrelevantes.
A participação de animais em feiras cria condições e riscos que precisam ser questionados e, mesmo quando não há uma violação evidente de bem-estar, permanece a questão ética de transformar seres sencientes em instrumentos de competição, entretenimento e comércio.
Fonte: DeProposito














