Por Ricardo de Oliveira, cofundador e CEO da Fórmula Pet Shop e sócio-diretor da Bable Pet*
O debate sobre o fim da escala 6×1 costuma ser conduzido a partir de uma perspectiva legítima: a busca por jornadas de trabalho mais equilibradas e pela melhoria da qualidade de vida dos trabalhadores. No entanto, existe um aspecto que ainda recebe pouca atenção. Alguns setores dependem justamente dos dias em que a maior parte da população está disponível para consumir, e é exatamente por isso que precisarão se adaptar mais rapidamente caso o novo modelo de jornada avance. O mercado pet está entre eles.
Ao longo dos últimos anos, acompanhei centenas de empresários do setor e existe uma característica comum à maior parte dos pet shops brasileiros: o sábado concentra boa parte do faturamento semanal. É nesse dia que os tutores levam seus animais para banho e tosa, realizam consultas veterinárias, compram rações e acessórios e aproveitam o tempo livre para resolver demandas que dificilmente conseguem atender durante a semana. Quando se reduz a disponibilidade das equipes justamente nesse período, não estamos falando apenas de uma mudança na escala de trabalho, mas de uma alteração direta na capacidade operacional das empresas.
É justamente por isso que me preocupa a forma como muitos empresários têm acompanhado essa discussão. Ainda existe a percepção de que vale a pena esperar uma definição legislativa para só então pensar em alternativas. Na prática, essa postura apenas adia um problema que, cedo ou tarde, precisará ser enfrentado. Independentemente do formato que a legislação venha a assumir, a tendência de redução das jornadas e de maior valorização da qualidade de vida dos trabalhadores já faz parte da realidade do mercado de trabalho. Empresas que se prepararem apenas quando a mudança estiver em vigor inevitavelmente terão menos tempo para reorganizar processos e absorver seus impactos.
Também me parece um equívoco acreditar que a solução passa simplesmente por aumentar o quadro de funcionários. A redução da jornada, mantendo a remuneração, eleva o custo da hora trabalhada e pressiona empresas que já operam com margens reduzidas. Em um segmento altamente competitivo, onde boa parte dos consumidores ainda escolhe serviços pelo preço, repassar integralmente esse aumento para o cliente nem sempre é uma alternativa viável. A consequência é que a eficiência operacional deixa de ser uma vantagem competitiva e passa a ser uma condição para preservar a rentabilidade.
Esse cenário expõe uma fragilidade que já existia antes mesmo da discussão sobre a escala 6×1. Muitos pet shops ainda dependem de processos pouco estruturados, controle manual de agendas, distribuição informal de tarefas e decisões baseadas na experiência individual dos colaboradores. Enquanto a operação cresce, essas limitações acabam sendo absorvidas pelo esforço das equipes. Quando a disponibilidade de mão de obra diminui, porém, elas deixam de ser pequenos problemas administrativos e passam a comprometer diretamente a capacidade de atendimento.
Ao mesmo tempo, empresas que investiram em organização, planejamento de escalas, indicadores de produtividade e padronização de processos tendem a enfrentar essa transição de maneira muito mais tranquila. A diferença entre elas não estará apenas na quantidade de funcionários, mas na forma como conseguem utilizar melhor o tempo disponível de cada profissional. A discussão, portanto, deixa de ser exclusivamente trabalhista e passa a ser, acima de tudo, uma discussão sobre gestão.
Outro movimento que provavelmente ganhará força é a tentativa de ampliar a contratação de profissionais autônomos para reduzir custos e dar maior flexibilidade às operações. Embora essa estratégia possa fazer sentido em determinadas situações, ela também exige cautela. Quando existe subordinação, rotina fixa, controle de horários e integração permanente à operação, a simples formalização como prestador de serviço não elimina os riscos de questionamentos trabalhistas. Buscar soluções rápidas para um problema estrutural costuma gerar passivos que aparecem justamente quando a empresa menos espera.
Existe, entretanto, uma oportunidade importante escondida nesse processo. Equipes menos sobrecarregadas tendem a apresentar maior produtividade, menor índice de erros e melhor qualidade no atendimento. Em um setor cuja principal matéria-prima é a confiança do tutor, oferecer uma experiência mais consistente pode representar um diferencial competitivo muito mais relevante do que simplesmente ampliar a capacidade de atendimento.
Por isso, acredito que o maior legado dessa discussão talvez não seja a redução da jornada em si, mas o incentivo para que empresários revisem a forma como administram seus negócios. O mercado pet cresceu de forma acelerada nas últimas décadas, mas parte dessa expansão aconteceu sustentada por muito esforço operacional e pouca estrutura de gestão. Se a mudança servir para acelerar a profissionalização do setor, fortalecer processos e tornar as operações menos dependentes de improviso, ela poderá representar um ganho não apenas para os trabalhadores, mas também para a sustentabilidade das próprias empresas.
O empresário que começar essa preparação agora terá tempo para reorganizar sua operação, testar novos modelos de escala e revisar processos antes que qualquer mudança se torne obrigatória. Quem optar por esperar provavelmente descobrirá que o maior desafio nunca foi a escala 6×1, mas a falta de planejamento para administrar um negócio que já exigia mudanças muito antes desse debate ganhar força.
*Ricardo de Oliveira é cofundador e CEO da Fórmula Pet Shop, maior consultoria para negócios pet do Brasil e da América Latina, com mais de 70 lojas inauguradas, 8.600 empreendedores treinados e 300 empresários em acompanhamento individual. Também é sócio-diretor da Bable Pet, rede com operações no Brasil, Portugal e Chile.
Fonte: Mention














