Por Greice Moreti, cofundadora do RONRON Cat Café*
O Brasil aprendeu a celebrar a adoção de animais, mas ainda dedica pouca atenção ao que acontece depois que eles chegam às novas famílias. Campanhas divulgam fotografias de cães e gatos resgatados, comemoram o número de adoções e apresentam os tutores como responsáveis por uma boa ação. Essa narrativa ajuda a mobilizar a sociedade, mas também esconde uma contradição. A decisão de acolher um animal costuma receber mais reconhecimento do que o compromisso de cuidar dele durante toda a vida. Considero esse desequilíbrio um dos principais problemas da maneira como tratamos a adoção responsável. Ao transformar o adotante em herói, criamos a impressão de que oferecer uma casa já representa uma contribuição suficiente. Não representa. Um animal que passou pelo abandono não precisa apenas sair de um abrigo. Precisa encontrar condições para viver com segurança, receber cuidados veterinários e desenvolver uma relação estável com pessoas dispostas a respeitar suas necessidades, inclusive quando a convivência se torna difícil.
O contraste entre os resultados das campanhas e a ausência de indicadores sobre a permanência dos animais nas famílias ajuda a dimensionar essa questão. Segundo a Prefeitura de Curitiba, a campanha Setembro Caramelo terminou com 24 adoções, sendo 21 cães e três gatos. Poucos dias depois, em 3 de outubro, o município promoveu outra ação com 50 cães disponíveis para adoção. O esforço merece reconhecimento, mas os números divulgados respondem apenas à primeira parte do problema. Sabemos quantos animais foram adotados, mas esses resultados, isoladamente, não permitem avaliar quantos permanecerão com suas famílias, quantos enfrentarão dificuldades de adaptação ou quantos tutores precisarão de orientação depois da adoção. Isso não significa que as iniciativas tenham falhado, e sim que precisamos exigir indicadores mais completos. Uma campanha que encaminha dezenas de animais para novos lares cumpre uma função importante, mas sua efetividade não deveria ser avaliada somente no dia da entrega. O compromisso com a proteção animal exige acompanhar também as condições que favorecem a permanência desses vínculos.
Essa limitação se torna ainda mais evidente quando observamos os avanços recentes na identificação de animais domésticos. De acordo com dados divulgados pelo governo federal em abril de 2026, o SinPatinhas contabilizava 1.305.529 cães e gatos cadastrados e já alcançava 98,3% dos municípios brasileiros. A abrangência territorial representa um avanço para a organização das políticas públicas, especialmente porque a identificação pode contribuir para localizar tutores e estruturar informações sobre a população cadastrada. Entretanto, existe uma diferença importante entre ampliar registros e assegurar proteção. O cadastro não demonstra, por si só, que os animais recebem atendimento veterinário, vivem em ambientes adequados ou estão protegidos contra o abandono. Tampouco permite concluir que a população cadastrada corresponde ao total de cães e gatos do país. O desafio agora é fazer com que a expansão do sistema seja acompanhada por políticas de castração, acesso a serviços veterinários e orientação sobre guarda responsável. Caso contrário, corremos o risco de comemorar a capacidade de registrar animais sem desenvolver, na mesma proporção, os mecanismos necessários para protegê-los.
Uma das objeções mais frequentes a esse tipo de cobrança é que exigir maior preparação dos adotantes pode reduzir o número de adoções e prolongar a permanência dos animais nos abrigos. O argumento merece atenção, mas parte de uma escolha equivocada entre encontrar famílias rapidamente e garantir que elas estejam preparadas. As duas preocupações precisam caminhar juntas. Um gato recém-adotado pode se esconder durante dias, evitar contato físico, apresentar dificuldades para utilizar a caixa de areia ou demonstrar medo diante de ambientes desconhecidos. Essas situações não significam necessariamente que a adoção fracassou, mas podem frustrar pessoas que esperavam uma adaptação imediata. É justamente nesse momento que a orientação faz diferença. Em agosto de 2026, a Prefeitura de Vitória lançou uma campanha alertando que o abandono começa antes de o animal chegar à rua, quando a decisão de acolhê-lo é tomada sem planejamento. Concordo com essa abordagem porque ela desloca a responsabilidade para o momento em que ainda é possível evitar o problema. Informar sobre despesas, comportamento, adaptação e necessidades específicas não dificulta a adoção responsável. Dificulta a adoção impulsiva, e essa é uma distinção que precisamos preservar.
Também precisamos abandonar a ideia de que a relação entre humanos e animais se resume a alguém que salva e outro que deve demonstrar gratidão. Essa interpretação ignora a individualidade dos animais e cria expectativas que podem prejudicar a convivência. Um gato não tem obrigação de ser afetuoso, aceitar colo ou corresponder imediatamente às demonstrações de carinho porque recebeu um lar. Sua personalidade, seus limites e suas experiências anteriores continuam existindo depois da adoção. Ao acompanhar encontros entre gatos resgatados e possíveis tutores, percebi como a convivência permite reconhecer características que uma fotografia ou uma descrição dificilmente revelariam. Há animais sociáveis, outros mais reservados, alguns que precisam de tempo para confiar e outros que estabelecem vínculos rapidamente. Essas diferenças precisam influenciar a escolha da família, porque afeto não substitui compatibilidade nem disposição para cuidar. A relação também transforma os tutores, altera rotinas e pode estabelecer novas formas de convivência dentro de casa, mas esses benefícios não devem ser tratados como uma obrigação do animal. Quando condicionamos o cuidado ao carinho que esperamos receber, deixamos de reconhecer que a adoção envolve acolher um indivíduo, e não adquirir uma companhia com comportamento previamente definido.
A proteção animal precisa ser avaliada pela capacidade de evitar novos abandonos, e não apenas pela quantidade de adoções anunciadas. Isso não diminui o trabalho de abrigos, protetores independentes e campanhas públicas, que frequentemente atuam diante de recursos limitados e demandas superiores à sua capacidade de atendimento. Pelo contrário, significa reconhecer que essas iniciativas não deveriam assumir sozinhas as consequências de decisões tomadas sem preparo. Defendo que programas de adoção incluam orientação prévia, critérios de compatibilidade entre animais e famílias e canais de apoio para dificuldades de adaptação, além de acompanhamento posterior quando houver estrutura para isso. O avanço dos cadastros nacionais também precisa contribuir para políticas públicas capazes de prevenir o abandono, e não apenas contabilizar animais. Depois de tantos encontros entre gatos e famílias, passei a questionar a necessidade de descobrir quem salvou quem. Essa pergunta ainda coloca a adoção dentro de uma relação de dívida e gratidão. Prefiro outra, muito mais exigente: estamos oferecendo aos animais condições para que permaneçam seguros e respeitados durante toda a vida? Uma adoção não se torna bem-sucedida quando alguém abre a porta de casa, mas quando continua disposto a mantê-la aberta diante das responsabilidades que assumiu.
*Greice Moreti é cofundadora do RONRON Cat Café, espaço de convivência com gatos resgatados e disponíveis para adoção, inaugurado em dezembro de 2022, em São Paulo. Em parceria com a organização de proteção animal Catland, atua na promoção da adoção responsável e na conscientização sobre o bem-estar felino. Sua experiência inclui o acompanhamento da aproximação entre animais e futuros tutores, com atenção ao comportamento dos gatos, à adaptação familiar e à construção de vínculos duradouros.
Fonte: Mention














