Estudo com quase 2 mil brasileiros mostra que propostas de proteção animal e ambiental conquistaram até 69,5% dos votos em eleições simuladas, enquanto medidas favoráveis à flexibilização de regras da indústria animal tiveram desempenho negativo

Em um país onde o agronegócio exerce forte influência econômica e política, defender os animais explorados pela indústria alimentícia pode ser uma vantagem eleitoral. É o que indica uma pesquisa publicada nesta quarta-feira (28) pela organização internacional Faunalytics, que investigou como propostas relacionadas à proteção dos animais de produção influenciam a escolha e a percepção dos eleitores brasileiros.

O estudo Votos Pelos Animais: How Farmed Animal Policy Wins Votes in Brazil, realizado com quase 2 mil brasileiros, analisou nove propostas de políticas públicas por meio de eleições simuladas entre candidatos hipotéticos.

Os resultados mostram um contraste expressivo: candidatos que propuseram impedir a destruição da Amazônia e do Cerrado para expandir a agropecuária industrial receberam 69,5% dos votos estimados. Já aqueles que defenderam punições mais severas para maus-tratos a animais de produção alcançaram 66,8%.

No extremo oposto, candidatos que propuseram reduzir exigências de saúde e segurança na produção animal receberam apenas 34,2% dos votos. Outras medidas favoráveis à indústria também tiveram desempenho inferior a 50%: permitir que empresas do setor mantenham a própria fiscalização sanitária (43,2%), flexibilizar restrições ambientais à expansão da agropecuária industrial (44,6%) e aumentar o apoio financeiro governamental às empresas de carne (45,3%).

Para a Sinergia Animal, organização internacional que atua pela redução do sofrimento dos animais explorados pela indústria alimentícia, os resultados colocam em discussão a distância entre o peso político do setor produtivo e a receptividade da população a medidas de proteção animal.

“Existe uma percepção, equivocada, de que defender os animais de produção é politicamente arriscado em um país com a força econômica do agronegócio brasileiro. A pesquisa desafia essa ideia. Os resultados indicam que proteger os animais e fortalecer a fiscalização são posições bem recebidas pelo eleitorado. É uma evidência importante para ampliar o debate sobre as prioridades do poder público e a construção de novas políticas públicas animalistas”, afirma Arthur Regis, especialista em políticas públicas da Sinergia Animal.

O agronegócio tem influência política. Mas suas propostas encontram resistência?

O levantamento revela que as quatro propostas avaliadas que favoreciam diretamente a expansão ou a flexibilização de regras da indústria animal tiveram desempenho inferior à metade dos votos nas simulações.

O resultado mais negativo foi registrado para a redução de exigências de saúde e segurança nas grandes fazendas industriais: 34,2%. A proposta de proteger a capacidade das empresas de realizar suas próprias inspeções alcançou 43,2%.

Para a Sinergia Animal, esses resultados reforçam a importância de discutir quem fiscaliza as condições de criação dos animais, quais informações são disponibilizadas à sociedade e até que ponto compromissos voluntários das empresas são suficientes para prevenir o sofrimento.

“A proteção dos animais de produção não pode depender exclusivamente da boa vontade das empresas. Precisamos de regras claras, fiscalização efetiva e transparência. Quando uma indústria concentra milhões de animais sob seu controle, suas práticas deixam de ser apenas uma questão privada e passam a exigir responsabilidade pública. A própria Constituição Federal (artigo 225) coloca como dever de todos a proteção ao meio ambiente e aos animais”, acrescenta Arthur.

Brasileiros apoiam o fim das gaiolas, mas a proposta ainda não influencia o voto

Outro resultado relevante envolve o confinamento de animais em gaiolas, prática combatida por organizações de proteção animal em diferentes países.

A proposta de proibir gaiolas nas fazendas foi avaliada positivamente pelos participantes. A pesquisa também identificou que esses candidatos foram percebidos positivamente em características como competência, simpatia e compaixão.

Para a Sinergia Animal, o resultado evidencia um desafio de conscientização: transformar a preocupação com o bem-estar animal em compreensão sobre as condições de criação e sobre a necessidade de políticas públicas específicas.

No Brasil, milhões de galinhas poedeiras e porcas reprodutoras são mantidas em sistemas de confinamento que restringem seus movimentos e comportamentos naturais. A organização atua junto a empresas do setor alimentício para promover a eliminação dessas práticas e ampliar a transparência sobre o cumprimento dos compromissos assumidos.

“A sociedade reconhece a importância de combater maus-tratos, mas nem sempre associa essa preocupação às condições em que os animais são criados para produzir alimentos. Precisamos aproximar essas duas realidades. O sofrimento de uma galinha ou de uma porca não deveria ser invisível apenas porque acontece longe dos olhos do consumidor. O consumidor tem o direito de ter informações sobre essa cruel realidade”, destaca Arthur.

Da preocupação com os animais às políticas públicas

A pesquisa também identificou receptividade às duas propostas mais populares em diferentes segmentos da população, incluindo grupos com preferências políticas distintas.

Os resultados surgem em um momento de renovação do Congresso Nacional e ampliam a discussão sobre o espaço da proteção animal na agenda legislativa brasileira.

Para a Sinergia Animal, políticas voltadas aos animais ditos de produção devem contemplar o fim de sistemas de confinamento extremo, a prevenção de procedimentos dolorosos, o uso responsável de antibióticos, a transparência das cadeias produtivas e o fortalecimento dos mecanismos de fiscalização.

“O Brasil é uma potência mundial na produção de alimentos de origem animal. Essa posição precisa vir acompanhada de responsabilidade sobre as condições em que bilhões de animais são criados. A nova legislatura terá a oportunidade de transformar preocupações sociais em medidas concretas para reduzir esse sofrimento. Há sofrimentos que não se justificam e não são mais aceitos pela sociedade sob nenhuma perspectiva, como ocorreu com a abolição da alimentação forçada pelo Congresso Nacional em 2026 (que ficou conhecida como lei de banimento do foie gras)”, conclui Arthur.

Sobre a pesquisa

O estudo Votos Pelos Animais: How Farmed Animal Policy Wins Votes in Brazil foi publicado em 28 de outubro de 2026 pela Faunalytics, organização internacional especializada em pesquisas para a proteção animal.

A investigação utilizou um experimento de escolha entre candidatos hipotéticos para avaliar a influência de nove propostas políticas sobre preferências eleitorais e percepções dos participantes.

Os percentuais representam estimativas obtidas nas simulações e não resultados de eleições reais ou previsões de votação.

Pesquisa completa: https://faunalytics.org/votos-pelos-animais-brazil-voters/

Sobre a Sinergia Animal

A Sinergia Animal é uma organização internacional de proteção animal que atua para reduzir o sofrimento dos animais explorados pela indústria alimentícia. Por meio de campanhas corporativas, incidência política e mobilização pública, trabalha para promover melhores condições de vida para animais de produção e transformar práticas da indústria alimentícia.

Fonte: DePropósito

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