Por Pablo Teixeira, CEO do Grupo +Pet
Há uma contradição silenciosa no mercado pet brasileiro. Nas últimas décadas, cães e gatos deixaram de ocupar um espaço periférico na vida das famílias. Entraram em casa, ganharam rotina, alimentação especializada, viagens, celebrações, cuidados cada vez mais sofisticados e, sobretudo, um vínculo afetivo que se aproxima daquele reservado aos demais integrantes da família.
A estrutura da saúde, porém, não evoluiu na mesma velocidade.
No Brasil, há hoje, em média, 1,8 animal de estimação por residência, segundo dados da Abempet e do IBGE. O mercado pet movimentou R$ 75,4 bilhões em 2024. Desse total, R$ 7,8 bilhões vieram de produtos veterinários e outros R$ 7,7 bilhões de serviços veterinários. Ou seja: saúde animal já representa uma parcela relevante dessa economia.
Ainda assim, grande parte da jornada continua começando quando alguma coisa dá errado.
O tutor percebe um sintoma, procura uma clínica. Se precisar de um exame mais complexo, vai para outro local. Se o caso exigir especialista, inicia uma nova busca. Se houver necessidade de internação ou atendimento de emergência, muitas vezes começa outra jornada. Informações nem sempre acompanham o paciente na mesma velocidade, e o gasto é frequentemente organizado depois que a necessidade apareceu.
Esse modelo funcionava melhor quando a medicina veterinária tinha menos recursos e os animais viviam menos. Hoje, a realidade é outra.
A veterinária incorporou especialidades, diagnóstico por imagem, oncologia, cardiologia, neurologia, terapia intensiva, cirurgias complexas, telemedicina e uma série de recursos que aumentaram de maneira importante nossa capacidade de diagnosticar e tratar doenças. Isso é uma excelente notícia. Mas também tornou o cuidado mais complexo — e potencialmente mais caro.
Esse fenômeno não é exclusivamente brasileiro. No Reino Unido, o aumento dos custos veterinários tornou-se uma questão regulatória. A autoridade de concorrência britânica identificou alta média de 63% nos preços do setor entre 2016 e 2023, muito acima da inflação, e o país avançou em 2026 com medidas para ampliar transparência de preços e informações ao consumidor.
A discussão que está acontecendo lá deveria servir de alerta para mercados que ainda estão amadurecendo.
O problema não é a medicina veterinária ter ficado sofisticada. Seria absurdo defender o contrário. O desafio é construir um sistema capaz de tornar essa sofisticação acessível e previsível.
Na saúde humana, por mais imperfeito que seja o modelo, já compreendemos há décadas a importância de acompanhamento contínuo, prevenção, atenção primária, rede assistencial e mecanismos de financiamento da jornada. No universo animal, ainda convivemos com uma lógica muito mais episódica.
Tratamos o pet como filho no afeto, mas frequentemente continuamos tratando sua saúde como um acontecimento.
Essa diferença se torna ainda mais evidente à medida que os animais vivem mais. Um cão ou gato que chega à velhice precisa de acompanhamento, exames periódicos, controle de doenças crônicas e, eventualmente, acesso a especialistas. Se cada uma dessas etapas for encarada como uma nova decisão isolada, o sistema permanecerá caro, fragmentado e pouco eficiente para todos.
É justamente aqui que acredito estar a próxima transformação do setor.
O futuro da saúde pet não será definido apenas por quem tiver o melhor hospital, a clínica mais moderna ou a tecnologia mais avançada. Será definido por quem conseguir conectar essas estruturas em uma jornada coerente.
Isso significa fazer prontuário, telemedicina, clínica, especialidades, exames e hospital conversarem entre si. Significa utilizar tecnologia não para substituir o veterinário, mas para fazer a informação acompanhar o animal. Significa permitir que um atendimento remoto identifique rapidamente quando existe necessidade de cuidado presencial e que o hospital já receba aquele paciente conhecendo seu histórico.
E significa também mudar a relação econômica do tutor com a saúde.
Planos e outros modelos de cuidado continuado não deveriam ser vistos apenas como mecanismos para pagar uma conta veterinária quando surge uma doença. Seu maior potencial está em mudar o comportamento: fazer prevenção, acompanhamento e diagnóstico precoce entrarem na rotina antes da emergência.
O mercado internacional já começa a revelar essa necessidade. Nos Estados Unidos, o seguro pet vem sendo apresentado cada vez mais como instrumento para reduzir a exposição das famílias a despesas veterinárias inesperadas. Em 2026, análises de mercado mostram inclusive como os custos aumentam significativamente conforme cães e gatos envelhecem.
Mas cobertura financeira, isoladamente, também não resolve tudo.
Se o tutor tem um plano, mas continua peregrinando por uma estrutura fragmentada, resolvemos apenas uma parte do problema. A verdadeira evolução está em unir financiamento e assistência.
Esse é um ponto importante porque verticalização, quando falamos em saúde, não deveria significar simplesmente possuir mais etapas da cadeia. Precisa significar fazer essas etapas trabalharem juntas.
Escala sem coordenação pode apenas multiplicar a fragmentação. Integração, ao contrário, pode criar eficiência, reduzir atrito e, principalmente, melhorar a experiência clínica do animal e da família.
Durante muitos anos, o mercado pet brasileiro concentrou enorme energia em sofisticar aquilo que colocamos ao redor dos nossos animais. Alimentação, produtos, serviços e experiências evoluíram rapidamente.
Agora, talvez seja hora de sofisticar aquilo que realmente sustenta tudo isso: a maneira como cuidamos da saúde deles.
O pet já virou filho.
O próximo passo é fazer com que sua saúde deixe de ser tratada como imprevisto e passe a ser tratada como aquilo que já deveria ser: parte permanente do cuidado.

Fonte: accrux














